Crise e queda de ‘commodities’ leva empresas a baixas contábeis recordes

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Os efeitos da crise econômica não se refletem apenas nos resultados operacionais ruins que as empresas vêm apresentando em seus balanços. As dificuldades com perda de receita, seja por retração do mercado ou por conta da queda dos preços, caso das commodities, geraram também reduções bilionárias no patrimônio de muitas companhias. Petrobras, Vale, Gerdau, Usiminas e BM&F, por exemplo, efetivaram baixas contábeis que, juntas, somaram R$ 94 bilhões em seus balanços de 2015 — o equivalente a US$ 26 bilhões — por redução do valor recuperável de ativos (impairment, o termo inglês normalmente usado).

As baixas divulgadas por essas cinco empresas, segundo especialistas, são bastante expressivas e mostram a profundidade da retração da economia. Para efeito de comparação, o lucro acumulado das 294 empresas de capital aberto na Bolsa de Valores, em 2015, somou R$ 107 bilhões, segundo levantamento feito pela consultoria Economática.
— Quanto mais a crise se prolongar, mais baixas contábeis as empresas vão contabilizar, pois o desempenho negativo das companhias se reflete diretamente na perda de valor de seus ativos — diz Michael Viriato, coordenador do laboratório de Finanças do Insper.

LAVA-JATO AINDA TEM IMPACTO

Viriato observa que as empresas ligadas a commodities apresentaram os números mais elevados de impairments em razão da queda no preço desses produtos no mercado internacional — especialmente petróleo, minério de ferro e aço —, atingindo em cheio Petrobras, Vale e siderúrgicas, como Usiminas e Gerdau. Na Vale, por exemplo, os ajustes, que haviam sido de R$ 2,7 bilhões em 2014, saltaram para R$ 36,3 bilhões. A mineradora atribuiu essa revisão à queda no preço do minério de ferro, que afetou o valor de seus ativos.
— Acho que o mundo inteiro está revisando para baixo as suas expectativas de preço, e isso se reflete no valor dos ativos — afirmou, durante a teleconferência sobre resultados, Luciano Pires, diretor executivo de Finanças da Vale, que registrou prejuízo de R$ 44,2 bilhões, também devido ao impacto das baixas contábeis.

No ano passado, a Usiminas teve um prejuízo de R$ 3,68 bilhões, devido, principalmente, a baixas contábeis. Segundo a empresa, houve impairment de R$ 2,1 bilhões no setor de mineração, de R$ 357 milhões em siderurgia, e de R$ 56, 7 milhões na Soluções Usiminas, uma subsidiária de logística e corte de aço. Além do fato de o preço do minério de ferro ter caído para menos de US$ 40 a tonelada, menor patamar desde 2008, a Usiminas também encerrou sua produção de aço na usina da cidade de Cubatão (SP), o que se refletiu nas baixas.


A Gerdau, também do setor siderúrgico, teve baixas de R$ 4,9 bilhões, que contribuíram para o prejuízo de R$ 3,7 bilhões registrado em 2015. A menor demanda por aço no mercado doméstico e a paralisação de atividades em algumas unidades levaram a essas baixas contábeis, segundo explicou a empresa em sua demostração de resultados.

O caso mais emblemático, porém, é o da Petrobras, que contabilizou R$ 49 bilhões em baixas contábeis, maior valor entre as companhias de capital aberto. A queda de 50% no preço do barril de petróleo (para menos de US$ 50), no ano passado, levou a uma reavaliação do potencial comercial de vários campos de petróleo. “Outros fatores que levaram ao impairment foram a redução das reservas provadas e prováveis; a revisão de sua carteira de investimentos, com redução nos gastos previstos para os próximos anos; a revisão geológica do reservatório do campo de Papa-Terra; e o aumento da taxa de desconto decorrente do maior prêmio de risco para o Brasil, pela perda do grau de investimento”, acrescentou a empresa em comunicado. A Petrobras fechou 2015 com prejuízo de R$ 34,8 bilhões.

— Desde que começou a Lava-Jato, as baixas contábeis da Petrobras têm surpreendido o mercado. Nunca se sabe o valor que pode sair — diz Viriato, do Insper.

Em dois anos, desde que começaram as investigações de desvios de recursos em contratos da empresa, a petrolífera registrou baixas contábeis de mais de R$ 90 bilhões. Mas nem todas as empresas que declararam baixas contábeis tiveram prejuízo no ano passado.

A BM&FBovespa fez a redução do valor recuperável de seus ativos, o que levou a uma baixa de R$ 1,7 bilhão. Esse valor está atrelado a uma expectativa de rentabilidade menor na aquisição da Bovespa — a fusão ocorreu em 2008. “O teste de impairment revelou a necessidade de redução de R$ 1,7 bilhão do valor recuperável desse ativo, refletindo a redução da expectativa de rentabilidade futura do segmento Bovespa”, explicou a empresa, que encerrou 2015 com lucro de R$ 2,2 bilhões, um crescimento de 125,3% em relação ao anterior.

Levantamento da Economática mostra que empresas de outros setores, como varejo, energia e farmacêutico, também tiveram perdas ao ajustar contabilmente o valor de seus ativos. As Lojas Renner tiveram baixa contábil de R$ 281 milhões em 2015. A BR Pharma registrou impairment de R$ 66 milhões, enquanto a Celpa deu baixa de R$ 118 milhões em eus ativos.

BENEFÍCIO TRIBUTÁRIO
Desde fevereiro, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que regula o mercado de capitais, vinha alertando as empresas para que fizessem testes de impairment antes de elaborar seus balanços. Esses testes devem ser feitos quando a empresa detecta que um ativo está avaliado por um valor muito diferente do que poderia ser vendido no futuro. Ou quando um investimento feito no passado não terá o retorno esperado mais adiante.

— Ao fazer esse ajuste, a empresa passa a retratar uma situação patrimonial mais correta para o mercado. Do ponto de vista da transparência, isso é o ideal — diz Paulo Zanotto, professor de contabilidade da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Ele lembra ainda que, ao reconhecer perda do valor de ativos, a companhia pode ter um benefício tributário à frente:
— Essas empresas trabalham com lucro real e fazem o pagamento de impostos ao longo do ano. Na declaração à Receita Federal, caso tenham tido um resultado menor que o previsto, ficam com créditos tributários para abater de demonstrações futuras.

O problema é que as empresas nem sempre fazem a revisão do valor de seus ativos com a periodicidade apropriada, já que não há uma regra para isso. Apenas as empresas do ramo financeiro com ações em Bolsa — que têm normas específicas, definidas pela CVM e pelo Banco Central — são obrigadas a declarar essas perdas periodicamente em seus balanços.

— As demais empresas acabam fazendo isso quando as consultorias que auditam seus balanços começam a pressionar, colocando ressalvas sobre o valor dos ativos. No limite, os auditores acabam se impondo, e a baixa contábil é feita — diz Paulo Bittencourt, consultor de investimentos, lembrando que as empresas relutam em fazer baixas contábeis para não revelar pontos fracos aos concorrentes. (Agência Globo)