De acordo com a atualização dos dados do Ministério da Saúde através do Painel Coronavírus publicada na manhã desta segunda-feira, 6, o Brasil já registrou mais de 1,6 milhões casos confirmados de Covid-19.

São 26.051 notificações extras desde o último balanço informado, além de 64.867 óbitos já confirmados pela doença. 

Este é um dos três levantamentos oficiais divulgados diariamente por órgãos a nível nacional, além do painel disponibilizado pelo Governo Federal, outras duas iniciativas envolvem as Secretarias Estaduais de Saúde, além de uma mobilização de veículos de imprensa, ambas fornecidas após a interrupção de dados durante alguns dias pelo Governo Federal. 

Em Minas Gerais, as confirmações giram em torno de 59.626 casos entre os municípios mineiros, e, 1.230 mortes causadas pelo vírus.

A âmbito municipal, a capital do Estado, Belo Horizonte, registrou 7.714 casos confirmados da doença, além de 176 mortes.

A ação gerou dúvidas e desconfiança de muitos especialistas e da comunidade geral, acerca da veracidade dos dados até então informados pelo Ministério da Saúde.

Sendo assim, as informações veiculadas neste período têm apresentado pequenas discrepâncias.

Contudo, o acontecimento ainda afeta a confiança daqueles que recebem as informações, especialmente, devido às diversas deficiências no modo de contabilização dos dados. 

A desconfiança ressalta a possibilidade de subestimação dos números oficiais sobre os infectados e mortos pela Covid-19 no Brasil em comparação ao restante do mundo.

Segundo um estudo realizado pelo Laboratório de Inteligência em Saúde da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, ligado à Universidade de São Paulo (USP), aponta uma estimativa que sugere a marca de 9 milhões de infectados pelo novo coronavírus no país, marcando uma margem de erro superior à 500% referente às estatísticas dos órgãos oficiais.

Os pesquisadores partem do ponto de que o país não tem capacidade para fornecer testes suficientes que determinem o real número de contágio. 

Baseado nos dados da Coreia do Sul, país conhecido por possuir um dos sistemas mais avançados sobre os exames da Covid-19 em todo o mundo, realizou-se um cálculo sobre a taxa de letalidade, que apresenta o diferencial entre as vítimas levadas a óbito em proporção aos doentes em tratamento. 

Ao assumir que o Brasil possa ter a mesma taxa de letalidade que o restante do mundo, foi calculado um total de pessoas contaminadas, bem como, um número de óbitos oficiais mediante um índice fixo, que poderia proporcionar mais segurança do que apenas um registro de casos prováveis da doença.

Considerando características específicas como as faixas etárias e tempo médio entre internação e óbito dos dois países, concluiu-se que o Brasil pode ter aproximadamente seis vezes mais casos confirmados do que os divulgados atualmente. 

Segundo especialistas, o Brasil não parece ter um esforço intencional na notificação dos casos, o que dificulta compreender a real dimensão da pandemia do novo coronavírus.

Tendo isso mente, surgem questionamentos sobre quais poderiam ser os problemas mais nítidos que dificultam a definição de dados precisos no país. 

1. Contabilização e divulgação dos dados

A necessidade de veiculação dos dados resulta na criação imediata de sistemas entre Prefeituras e Estados, sem que haja uma padronização na coleta e transmissão dos dados.

Antes da pandemia atingir o país, o Ministério da Saúde dispunha de um Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), e o InfoGripe da Fiocruz, ambos relatam o quadro de doenças respiratórias no Brasil.

Entretanto, não há como precisar a quantidade de casos referentes à Covid-19 dentro destes quadros com pré-disposição à doença.

No que compete às Prefeituras, estas trabalham incessantemente para contabilizar todos os dados sobre a disseminação e contágio do vírus, através do contato direto com as unidades da saúde do município.

Os dados recolhidos, são analisados e repassados aos órgãos superiores, governos estaduais e federal, agregando ao registro oficial. 

Destacando os meios de trabalho de cada município e estado, vale lembrar que ainda existem muitos locais que organizam os dados manualmente, atividade que pode gerar um atraso considerável no repasse e divulgação dos dados.

Assim, conforme destacou um pesquisador, há a probabilidade de a comunidade acompanhar a compilação de informações referente a dias anteriores. 

2. Testes: quantidade e qualidade

Diante da distribuição de alguns modelos de testes e exames que podem detectar a infecção da Covid-19 em um indivíduo, ainda existe a baixa distribuição de testes e qualidade de exames disponíveis.

covid19
Covid-19

Ainda aqueles conhecidos por apresentarem resultados mais próximos à exatidão, tal qual o RT-PCR, este ainda possui algumas limitações, uma vez que detecta apenas pessoas infectadas naquele exato momento, descartando as vítimas já recuperadas que também deveriam constar nas estatísticas.

Também existe a chance de o exame não detectar a infecção se a coleta não for executada na parte do sistema respiratório em que o vírus se encontra. 

“O teste do PCR detecta, na melhor das hipóteses, de 70% a 80% dos casos”, disse o médico do centro de pesquisa clínica e epidemiológica do hospital universitário da USP, Márcio Sommer Bittencourt.

Cientistas brasileiros também dizem que o Brasil está testando poucas pessoas para a Covid-19, o que é possível comprovar por meio da taxa de positividade, que aponta o número de exames positivos contra a proporção de testagens.

A taxa brasileira gira em torno de 40%, direcionada apenas aos casos graves, na maioria das vezes, em vítimas já hospitalizadas.

Tendo em vista de que se trata de uma pandemia, toda a população deveria ser testada. 

Conforme a Organização Mundial da Saúde, a taxa ideal de positividade é de 5% para a população que passar pelo teste, negativando os outros 95%.

“Os testes no Brasil são feitos quase que apenas nos internados. Nós estamos no escuro, estamos míopes sobre essa pandemia”, afirmou Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.

Também há a falta de rastreamento, não sendo possível detectar o vírus em todas aquelas pessoas que tiveram contato direto com os pacientes da Covid-19.

De acordo com Márcio Bittencourt, o Governo também não tem sido claro na divulgação do número de pessoas testadas, sem especificar se esses testes estão em andamento ou se já foram concluídos.

3. Balanço de mortes pelo Covid-19

Além de incompatibilidades sobre os casos prováveis e confirmados, a divergência também afeta o registro de mortes causadas pelo novo coronavírus no país.

Um dos meios de observação possíveis para este fato, é a análise de mortes em excesso, que pode gerar variações em períodos sazonais como o mês de julho, que costuma ter o maior número de mortes no Brasil.

Com a chegada da pandemia, a quantidade de pessoas morrendo aumento consideravelmente em todos os meses em comparação com a média dos últimos cinco anos.

Outro obstáculo dificulta o cálculo de mortes pela Covid-19, os cartórios.

Quando um brasileiro morre, a família tem o prazo de 24 horas para fazer o registro, na sequência, o cartório tem o período de alguns dias para notificar o óbito para a central nacional de registros.

Também há casos de o exame que aponta a presença do vírus, ficar pronto somente depois que essa vítima vem a óbito.

Já que o atestado de óbito deve ser feito logo após a morte, não tem como esperar um prazo maior que aponte dados precisos sobre a causa da morte.

Vale ressaltar que, em municípios pequenos o documento sequer é efetuado por um médico. 

Estas entre outras imperfeições no sistema que levam ao atraso de informações, levam Domingos Alves a acreditar que o número de óbitos noticiado representa apenas 60% do total real.

Sendo assim, as 64 mil mortes por Covid-19, na verdade seriam pouco mais de 106 mil até o momento.

A base dos cálculos também estima que os casos infectados chegam a 9 milhões de infectados.