Encontrar um emprego depois de concluir a faculdade tem sido um desafio para Isabella de Oliveira, de 25 anos, formada em Comunicação Social.

— Quando eu fiz vestibular, tinha uma ideia muito tradicional da profissão. Eu me identifiquei com a fotografia e o audiovisual, que são áreas específicas — diz Isabella: — As vagas que tenho visto pedem habilidades muito diversas. De produção de texto, conhecimento em design a análise de dados e gestão de mídias sociais.

Com um número maior de diplomados no país, a concorrência fica mais acirrada. No primeiro trimestre deste ano, o Brasil tinha 20,3 milhões de formados no mercado. E os processos seletivos recebem cada vez mais currículos. De acordo com a especialista em RH Debora Nascimento, diretora do Grupo Capacitare, grandes processos seletivos de empresas costumam receber dez mil candidaturas para vagas de estágio e trainee. Embora o número chame a atenção, Debora pontua que, no fim dos processos, sobram apenas quatro candidatos por vaga.

— Muitos candidatos se inscrevem sem preencher os requisitos básicos da vaga. Com isso, apenas 20% passam de fase. A cada etapa, cerca de 50% são eliminados, até que restam cerca de quatro finalistas para uma posição — explica Nascimento.

A diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio (ABRH), Clarissa Frossard, diz que é muito importante que os candidatos tenham atenção na hora de cadastrar seus currículos:

— Vemos muitos currículos genéricos, sem informações relevantes. Às vezes, o profissional tem boa experiência, mas não destaca o mais importante.

As oportunidades para profissionais de TI, Mídias Digitais, Direito, Financeiro e Contabilidade continuam em alta, assim como vagas técnicas como Mecânica, Elétrica, Automação e Eletrônica, para atender as demandas das indústrias. Segundo especialistas, é possível notar ainda que algumas vagas aparecerem com mais frequência do que antes.

— Com a retomada da economia, também surgem vagas em comunicação, marketing, secretariado e recursos humanos — afirma Nascimento.

Desemprego têm alta de 13% entre formados

Isabella reflete a situação de parte dos brasileiros com ensino superior completo. Em um ano, o total de desempregados que têm ensino superior aumentou 8%. No primeiro trimestre de 2018, eram 1.236 milhão nesta situação. No mesmo período, só que em 2019, 1.398 milhão, de acordo com dados da Pnad Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além da fragilidade do mercado de trabalho, que segue absorvendo os brasileiros principalmente pela porta da informalidade, outro dado que ajuda a entender a dificuldade de diplomados em conseguir emprego é a força de trabalho escolarizada. Em um ano, o mercado recebeu 1,5 milhão de diplomados.

— Os trabalhadores brasileiros estão ficando mais escolarizados. Desde a estabilização da economia, com o Plano Real, e com programas de incentivo, como Fies e ProUni, as pessoas conseguiram entrar nas universidades — explica Maria Andreia Lameiras, técnica de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea):

— Este grupo de trabalhadores mais escolarizados que tem chegado ao mercado de trabalho em um momento de fragilidade da economia. Como consequência disto, acabam não encontrando vagas compatíveis com suas formações.

Se por um lado a falta de trabalho entre os mais escolarizados aumenta, o desemprego geral cai. No primeiro trimestre de 2018, o país tinha 13.634 milhões de brasileiros sem emprego. Na comparação com o mesmo período deste ano, houve redução de 1,8% no total, com 13.634 milhões de pessoas sem emprego.

— O mercado de trabalho para pessoas com ensino superior caminhou em direção contrária do mercado como um todo — destaca Bruno Ottoni, pesquisador da consultoria iDados: — O tipo de emprego que tem sido gerado, e que demonstra uma melhora no índice geral de desemprego, em sua maioria não requer tanta qualificação.

Diferenciais que chamam atenção das empresas

Segundo a consultora de Recursos Humanos e diretora da Resch RH, Jacqueline Resch, além das habilidades técnicas, as principais competências exigidas pelas empresas tem a ver com a capacidade de lidar com problemas no contexto das novas tecnologias.

FLEXIBILIDADE: Aceitar e lidar com as mudanças constantes, aprender novas competências e considerar diferentes perspectivas ao analisar uma questão.

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL: Capacidade de reconhecer as próprias emoções, entender o impacto delas em si próprio e nos demais. É fundamental para atuar em equipes diversas, hoje mais comuns nas empresas, dado o valor à pluralidade.

COLABORAÇÃO: Os problemas hoje são complexos. Trabalhar em colaboração agrega vários pontos de vista e traz soluções mais completas.

CRIATIVIDADE: Explorar os recursos disponíveis para apresentar respostas inovadoras às demandas que surgem é um diferencial no perfil dos profissionais.

— Há sim profissionais bem preparados no mercado, entretanto, as maiores carências estão nas competências comportamentais e relacionais — afirma Jacqueline Resch.

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