Fazer uma análise de cenário de curto prazo requer um exercício de agilidade que parece ser viável apenas para agências de informação de grande estrutura. Ainda assim, com as ressalvas frente aos ruídos intrínsecos a esse horizonte de tempo.

Ao focar nos fundamentos da economia brasileira, estamos fazendo um exercício de “dia seguinte” à crise mundial causada pela pandemia da covid-19, para melhorar o discernimento de quais dos movimentos diários são temporários, quais podem estar exagerados e quais possuem caráter de longo prazo.

Tomemos os quatro principais fundamentos que são as contas externas, o nível geral de preços, as contas públicas e o crescimento da economia. Com eles é possível se lançar as bases para a discussão sobre um elemento chave que é a taxa de juros e os desdobramentos sentidos no custo de capital, investimentos diretos, câmbio, etc.

Nas contas externas, as reservas internacionais estão em queda, porém ainda com estoque acima do recomendado pelo FMI para países emergentes. A inflação está baixa, motivada por uma ociosidade elevada. Em crescimento são destacados o alto desemprego, a baixa alavancagem do setor privado, a baixa confiança do investidor e a produtividade estagnada. Nas contas soberanas há o déficit, a dívida e os gastos públicos em níveis altos e em elevação substancial.

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Por sua importância capital e estrutural, cabe destaque ao setor público, e em especial às despesas. Elas são elevadas e rígidas, ou seja, só podem ser reduzidas por reformas. Foi feita a reforma da previdência, mas a “Agenda Guedes” precisa andar no congresso. As reformas fiscais visam aumentar previsibilidade, a autonomia do Banco Central (BaCen) caminha no sentido de aumentar a governança, as reformas de simplificação e barateamento do relacionamento da iniciativa privada com o Estado marcham para o aumento da capacidade de crescimento sem inflação, para que, enfim, os juros reais fiquem em patamares internacionais de forma perene.

A sinalização que o BaCen tem feito nos últimos relatórios de inflação e os cortes de juros de curto prazo demonstram uma tentativa categórica de incentivar o crescimento. Ela está navegando entre o hiato de produto, que é a diferença entre o PIB observado e o potencial, e a estimativa do juro neutro, que é o nível que estimula a economia sem gerar instabilidade de preços. Todavia, dadas as fragilidades expostas anteriormente, esse nível de juros não está sustentável tanto para horizonte atual, vide o efeito colateral no câmbio, e quanto numa circunstancial retomada de atividade econômica, efeitos inflacionários.

Essa insustentabilidade mostra de forma super simplificada o quanto é inadiável, do ponto de vista estrutural, a necessidade do avanço da agenda de reformas dos gastos públicos e da eficiência do Estado para que o país possa ser alvo de investimentos em uma eventual retomada da economia mundial.

Por Mauricio Takahashi, professor do núcleo de finanças e métodos quantitativos da Universidade Presbiteriana Mackenzie Alphaville.