Entrevista: A dificuldade para contratar profissionais qualificados na área contábil

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Entrevistador: Ronnie de Sousa
Profissional de contabilidade, auditoria interna e controladoria, MBA em IFRS pela FIPECAFI, mais de 30 cursos de extensão universitária, sócio fundador do Portal Contábil Essência Sobre a Forma, sócio contador da FREC Contabilidade e FEC Outsourcing.

Entrevistado: Michel Rodrigues
Bacharel em Ciências Contábeis pela Universidade de Guarulhos – UNG. Profissional da área contábil desde 2006, atualmente exerce cargo de Gestão e Gerência em Controladoria, colunista do portal Essência sobre a Forma, e, atualmente ministra cursos e palestras voltados para a área contábil-tributária e departamento pessoal.

Perguntas:
[Ronnie de Sousa] Segundo pesquisa da Robert Half (empresa de recrutamento especializado), veiculada em agosto de 2014, os profissionais mais demandados nas áreas contábil e financeira são controller e gerente contábil, qual motivo da escassez destes profissionais?
[Michel Rodrigues] Atualmente observamos um mercado bastante desafiador, já nos primeiros meses de 2015 foi apurado uma taxa crescente de desemprego batendo 7,9 %, taxa da qual não víamos desde 2003, porem na contramão observamos para algumas posições como Controllers e Gerentes Contábeis o inverso desta estatística, isso é reflexo da falta de mão de obra especializada que ainda enfrentamos no Brasil, o domínio do inglês aliado a atualização, estudo constante, dedicação e investimentos, dificulta a busca das organizações em encontrar bons profissionais.

[Ronnie de Sousa] Outra pesquisa, veiculada em maio de 2015, pela Page Personal (empresa de recrutamento especializado) aponta o cargo de analista de contabilidade como o sétimo em dificuldades de contratação, aumentou a demanda de mercado ou aumentaram as exigências dos contratantes?

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[Michel Rodrigues] Não diria que aumentaram as exigências dos contratantes, e sim um consenso do mercado de que esse profissional é cada vez mais estratégico dentro das organizações do que operacional, com a introdução das normas internacionais de contabilidade advindas pela Lei 11.638/2007, com as alterações advindas pela Lei 12.973/2014 onde temos significativas mudanças nas informações contábeis, tornando-as uteis para tomada de decisão estratégicas e gerencial e não mais engessadas como anteriormente, onde grande parte das organizações as tinham apenas para atendimento ao fisco, tornou esse profissional muita mais disputado, apresentando ainda salários mais inflacionados e consequentemente um profissional mais valorizado.

[Ronnie de Sousa] As instituições de ensino superior que ministram curso de ciências contábeis mais o Exame de Suficiência do Conselho Federal de Contabilidade preparam o jovem profissional para atuar no mercado de trabalho?

[Michel Rodrigues] O que tenho observado é que ainda existe uma lacuna muito grande entre o que é ensinado nos cursos de contabilidade e exigido no Exame de Suficiência do Conselho Federal, com o dia a dia do profissional Contador, essa lacuna se dá principalmente com a falta de laboratórios técnicos nas universidades e também exigência pratica por parte do CFC, como exemplo de exigência temos o exame da OAB, onde temos índices chegando a 89% de reprovação, porem onde é exigido do Bacharel em Direito recém-formado um esforço e dedicação em padrões super elevados em duas fases de exigência, sendo a segunda um exame pratico-profissional.

Outro ponto em que as universidades deixam a desejar é na formação de empreendedores, todo recém-formado em Ciências Contábeis sonha em ter seu próprio escritório, porem a formação acadêmica por si só não dá ao profissional condições e expertise para o negócio, o grande volume de exigências fiscais, padrões internacionais de contabilidade , velocidade nas informações, falta de experiência em marketing e tecnologia, honorários não regulamentados, aliado a falta de experiência faz com que esses “aventureiros empreendedores contábeis” não atendam de forma adequada seus clientes ou se quer consigam se manter ativos nos mercado cada vez mais concorrido.

[Ronnie de Sousa] Bom domínio de informática, segundo idioma e experiência são requisitos constantes em anúncios de vagas na área contábil, quais são os outros adjetivos para angariar uma boa vaga?
[Michel Rodrigues] Bem objetivo acrescentaria além destes requisitos mencionados uma busca constante por atualização e estudos sobre a legislação contábil/tributaria, dinamismo para se acrescentar no dia a dia estratégias para uma gerencia financeira e custos, além é claro de um comprometimento com o resultado da organização, o que diga se de passagem não é um requisito fácil de se encontrar. Com esses adjetivos esse profissional estará pronto para ser referência e gerar todas as informações necessárias sobre ou rumos e decisões estratégicas da empresa.

[Ronnie de Sousa] Após a dificuldade para contratar um bom profissional, qual a fórmula para reter este colaborador na empresa?

[Michel Rodrigues] Sem dúvida a principal maneira de se reter bons colaboradores é a implantação de uma política de remuneração, na qual deverá compor critérios de avaliação constante dos cargos e salários e avaliação de desempenho, que poderá ocorrer semestralmente ou anualmente. Na prática atribuir valor ao trabalho e, através disto, tornar as pessoas produtivas e a empresa competitiva é o grande desafio da gestão nos dias de hoje. Além de complexo, o tema está se tornando cada dia mais dinâmico com estudos inovadores e surpreendentes no que se refere ao conhecimento sobre o comportamento humano e suas motivações.

[Ronnie de Sousa] Deixo este espaço para sua conclusão

[Michel Rodrigues] Acompanhar e adequar práticas inovadoras ao que o mercado de trabalho necessita é parte do escopo tanto das organizações que buscam por bons profissionais, quanto dos profissionais que desejam ser valorizados e disputados. Para as organizações não basta contratar bons profissionais, mas também desenvolver e manter bons profissionais na organização, desenvolvendo banco de talentos internos, planejando a contratação de trainees, inserindo uma boa política de remuneração, análise de desempenho e potencial como ferramentas para descoberta dos talentos e de aspirações das pessoas.