Inflação no Brasil: Perspectivas de cenário para o futuro do país

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Não precisa ser economista para sentir a inflação, principalmente no bolso. Basta passar pelos corredores de qualquer supermercado para constatar a alta nos preços.

Segundo o coordenador do Instituto de Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Ahmed El Khatib, a elevação da inflação, em todas as faixas de renda, se deve à alta valorização do dólar frente ao real, que encareceu as importações, e o aumento da demanda por produtos agrícolas no cenário internacional.

“No caso particular brasileiro, houve também uma queda, durante a pandemia, dos serviços consumidos pela classe média, como turismo e alimentação em restaurantes, e um aumento dos preços de itens essenciais, como alimentação. Além disso, as tarifas de energia elétrica, cujos aumentos ficaram represadas em boa parte de 2020, sofreram reajustes no final do ano elevando a inflação. Portanto, aumentos em preços de itens essenciais, conjugados com não reajustes de salários dos trabalhadores, fez com o que o poder de compra dos brasileiros diminuísse. Para 2021, a Agência Nacional de Energia Elétrica já autorizou um aumento de cerca de 13% para as concessionárias de energia, o que pode elevar ainda mais a inflação acumulada para o ano”, analisa o especialista.

Ahmed destaca ainda que durante os 12 primeiros meses de pandemia da Covid-19, a inflação sentida pelas famílias mais pobres brasileiras foi de 6,75%.

Atualmente, em junho de 2021, esse número acumulado chegou a 8,57%.

Em 2019, antes da Covid-19, havia um “balanceamento” da inflação entre as diferentes faixas de renda. Após o cenário de normalidade, a inflação se concentrou em grupos específicos, como os mais pobres.

“Além disso, os índices de preços ao consumidor e os núcleos de inflação permanecem abaixo das metas de longo prazo nas economias avançadas, embora com elevação na margem. Os índices ao consumidor têm acompanhado os efeitos da elevação de preços de commodities nos últimos meses, seja por pressão em commodities agrícolas, seja pelo aumento do preço do petróleo no mercado internacional”.

Mas o que chama a atenção são os preços administrados, uma das principais pressões no IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), indicador que mede a inflação para consumidores, nos 12 meses até maio de 2021.

“Os preços administrados são os serviços e produtos com reajustes definidos por contratos ou regulados pelo setor público. Ou seja, a variação de seus custos não é determinada pela oferta e demanda do produto ou serviço no mercado como, por exemplo, combustível, energia elétrica e planos de saúde médicos, que representaram 25% do peso do IPCA. Os outros produtos são chamados de “preços livres”, aqueles que variam conforme a quantidade de produtos disponíveis no mercado e o número de compradores. É o caso dos alimentos, por exemplo. E mais alta vem por aí, uma vez que os preços administrados devem ter uma variação ainda maior, pressionados pela bandeira vermelha 2 na energia”.

Inflação pelo mundo

O especialista comenta também que as maiores economias do mundo têm apresentado muita instabilidade na expectativa de alguma alteração da política monetária, especialmente nos Estados Unidos, pois acaba sendo o ponto de referência de boa parte delas.

“A inflação começa a ser uma preocupação, mesmo que a pandemia ainda imponha algumas restrições domésticas ao crescimento. Por exemplo, a recuperação da China, que em 2020, nem sequer apresentou retração, acabou por impulsionar a demanda global por commodities, de alimentos a minério de ferro, passando pelo petróleo, o que gerou distorções entre oferta e demanda, com fortes pressões de preços. Na medida que outras economias também vão avançando, sustentadas por estímulos fiscais e a vacinação, como nos EUA, Reino Unido e Alemanha, as pressões de preços ganham mais impulso, o que leva a esse questionamento quanto a possíveis revisões de estímulos, passando pelas políticas de juros”.

Ainda segundo o professor, as dificuldades que vieram com a pandemia, em que as restrições de atividade e o isolamento social levaram a fortes retrações, com aumento do desemprego e perda de renda.

Por mais que os governos tenham reorientado as políticas para minimizar os danos, ainda estão longe de uma situação de normalidade em relação à abertura.

O que traz insegurança quanto à manutenção da retomada, não somente no Brasil, mas nas economias mais desenvolvidas.

Impacto na cadeia produtiva no Brasil

A alta valorização do dólar frente ao real na pandemia afeta os preços domésticos em dois aspectos: o primeiro é que, como a maioria dos preços de custo de produção dos alimentos é vinculada ao dólar, com a moeda brasileira desvalorizada os preços internos são majorados e competem com os preços de exportação e, por consequência, essa diferença cambial é repassada ao preço final no atacado e no varejo. Outro fator é que a capacidade de produção das indústrias do setor tem se direcionamento ao mercado externo, impactando na oferta ao mercado interno.

“Noutras palavras, com real desvalorizado em relação ao dólar seria como se os produtos brasileiros estivessem em promoção para o mercado externo. Foi o que aconteceu em 2020 com o arroz: 35 países aumentaram as importações do Brasil e outros 25 passaram a comprá-lo. Com o dólar caro, o produtor prioriza as exportações, esvaziando o mercado local. O resultado é um preço maior em razão da procura e pouca oferta.”

O professor acrescenta que há um temor de que o IPCA deva atingir a 7% a.a. até o fim do primeiro semestre/2021 e, ainda, a inflação chegará na prateleira dos supermercados mais forte do que se esperava. Há uma tendência de repasse de preços da cadeia produtiva, que iniciou nas matérias-primas brutas e agora se espalha para os demais níveis de produção, como os insumos utilizados na lavoura como fertilizantes (15% em março.

Setores mais atingidos

Na opinião do pesquisador, a indústria e o varejo brasileiro foram os setores que mais sofreram com a inflação, uma vez que esse é um dos piores choques de preços desde o final da hiperinflação nos anos 1990.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Real, dinheiro, moeda / Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

“Com os aumentos sucessivos nos preços do petróleo, alimentos e minério conjugados com a desvalorização da moeda brasileira, temos uma inflação cada vez mais aparente que demanda esforços do governo, em especial, no sentido, de controlá-la via aumento na taxa de juros básica (SELIC). Com isso, temos produtos básicos mais caros puxando os preços da soja, trigo, milho, açúcar, minério de ferro, aço, dentre inúmeros outros. Como esses itens estão na base de quase tudo que se produz na indústria, acaba a afetando diretamente e aos consumidores finais”.

A pressão dos preços das matérias-primas também já pode ser sentida com bastante clareza pelos consumidores em vários produtos, caso dos alimentos, que já ficaram muito caros nos supermercados desde o início da pandemia, e os combustíveis, que tem subido com frequência.

“A inflação ao consumidor olha apenas para os preços dos serviços e dos produtos no varejo, enquanto a do atacado mede os preços dos produtores para a indústria e da indústria para o varejo. E é a indústria, que está bem no meio entre os produtores do campo e os consumidores, a que está sendo mais espremida por essa pressão inédita de preços. Portanto, acredito que esses dois setores sofram mais no atual momento”.

Futuro

O IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo – 15) apresentou alta de 0.83% em junho de 2021, influenciado basicamente pelas altas no preço de gasolina e energia elétrica.

As projeções para a inflação indicam um percentual de 5,90% para 2021, acima do teto da meta previsto que é de 5,25%.

“O alta nos preços dos alimentos conjugado com câmbio (real desvalorizado), possibilidade de aumentos nas tarifas de energia elétricas, em função da seca vivida no Brasil, são alguns dos exemplos que tem influenciado a alta da inflação. Dessa forma, a equipe econômica do governo tem se esforçado, especialmente, para alterar a taxa básica de juros (SELIC) com aumentos sucessivos, como forma de mitigar esse impacto inflacionário. É uma medida válida, mas talvez não suficiente, uma vez que o controle da inflação depende de outras variáveis (algumas fora do controle governamental) como significativo aumento dos preços da commodities (produtos de uso básico com cotação no mercado internacional, como minério de ferro, petróleo, alimentos) e restrição de oferta de alguns materiais e insumos utilizados na produção nacional”.

Taxa Selic

Em função da alta da inflação, o professor diz que há indícios de novos aumentos na taxa de juros básica (SELIC).

“Acredito que no final desse ano experimentaremos uma taxa SELIC de 6,5%. Isso se deve pelo não atingimento da meta prevista no teto. Trata-se de uma ação efetiva, mas precisamos levar em consideração outros fatores como retomada efetiva da economia no segundo semestre de 2021, controle (não eliminação) da Pandemia, em especial com a nova variante Delta e cenário eleitoral para 2022”.

Papel do Governo

Ahmed diz que o Ministério da Economia tem realizado ações que já vinham sendo realizadas em governos passados, uma vez que a “mágica” de controle do dragão inflacionário sempre é a mesma e depende de várias variáveis.

“Controlar a inflação tende envolver sacrifícios de curto prazo, como crescimento mais baixo e desemprego mais alto. É uma escolha com duras consequências. A história mostra que o dragão nunca morrerá, apenas estará dormente em alguns momentos de bonança econômica e social. No caso do Ministro Guedes, percebo que houve a construção inicial (no início do mandato presidencial) de uma agenda liberal, de privatizações, de marcos legais (como o do gás, autonomia do banco central, ferrovias, aeroportos), mas pouco foi feito no cenário mais micro, isto é, do lado da demanda. Neste lado da demanda, temos a população em geral que sofrerá com os aumentos nos preços, perda de poder aquisitivo e desemprego batendo na marca de 15 milhões de brasileiros. Essa, conjugada com a agenda liberal do lado da oferta, deveria ser a preocupação imediata, sobretudo em função dos efeitos da pandemia de COVID-19. Portanto, o cenário que se desenha não é nada favorável para o controle dos preços (não só em termos percentuais e de metas) para a população em geral que tem sua vida indexada aos índices de inflação (alimentos, combustíveis, alugueis e outros)”, finaliza.

O especialista

Ahmed Sameer El Khatib: graduado em Ciências Contábeis (Universidade de São Paulo), Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e Doutor em Administração de Empresas (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Concluiu seu estágio pós-doutoral na Universidade de São Paulo e é Professor de Contabilidade Financeira, Finanças e Auditoria na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado – FECAP.