Livro Conta História do Contabilista que nascer com a cabeça virada para trás

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O contabilista Claudio Vieira de Oliveira narra sua história de superação nas páginas de “O Mundo Está ao Contrário”, lançamento da Bella Editora.

Desde o nascimento ele convive com uma doença muitíssimo rara, a artrogripose múltipla congênita. Por causa dela, tem as pernas atrofiadas, os braços colados no peito e a cabeça totalmente virada para trás.

Na obra, Claudio conta como aprendeu a se locomover de joelhos aos oito anos e fala sobre a independência que isso lhe deu. Morador de Monte Santo, no sertão da Bahia, ele relata como foi frequentar a escola aos 15 anos para se alfabetizar e como driblou as dificuldades para cursar contabilidade na faculdade.

Hoje, aos 40, ele ministra palestras motivacionais dentro e fora do Brasil. Católico, Claudio diz que respeita outras religiões e credita à fé a razão de sua determinação. Entre as memórias reveladas estão os encontros com o papa João Paulo 2º em Roma e com o papa Francisco, na Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro.

O livro é ilustrado com fotos do premiado fotógrafo Yasuyoshi Chiba.

Leia abaixo um trecho do livro.

O que um homem de joelhos pode fazer além de rezar?

Muita gente me questiona: o que um homem de joelhos pode fazer além de rezar? Desde cedo decidi que a resposta a essa pergunta seria: tudo, tudo aquilo que eu desejar. Sei que pode parecer mentira, mas nunca me revoltei contra minha deficiência física ou com o fato de ser diferente das pessoas ditas “normais”. E hoje sei, sem sombra de dúvida, que devo boa parte disso à minha mãe.

Nascida na cidade de Queimadas (BA), Maria José Vieira Martins já havia dado à luz quatro crianças – dois homens e duas mulheres: Sônia Aparecida, Osvaldo José, Jorge Luiz e Maria da Conceição – quando engravidou de mim, aos 30 anos. Ela havia conhecido meu pai, Aleomar Salgado de Oliveira, em Monte Santo, pequena cidade do sertão baiano, localizada a pouco mais de 70 quilômetros de sua terra natal, para onde havia se mudado e da qual nunca mais saímos.

Assim como praticamente todas as mulheres daquela época, não fez nenhum tipo de exame pré-natal. O único hospital das redondezas ficava em Feira de Santana (BA), distante mais de 200 quilômetros. Os partos eram naturais, feitos em sua quase totalidade nas casas, por parteiras ou familiares mais experientes.

Nasci em 1º de abril de 1976. O dia, conhecido como “da mentira”, não poderia ser mais apropriado para uma existência como a minha, tão improvável. A minha chegada ao mundo, como é de se prever, foi complicadíssima.

Minha mãe ficou horas em trabalho de parto. Quem a ajudava era sua avó, minha bisa, Maria Madalena. Ela já estava quase desmaiando e nada de eu nascer. Foi quando perceberam que o caso era grave e seria preciso a ajuda de um médico. Meu pai saiu correndo pela cidade perguntando por um e teve a sorte de encontrar o estudante de medicina Josevaldo Barreto dos Santos.

O moço chegou em casa esbaforido e logo viu tratar‑se de um caso bem grave. O bebê não encaixava de jeito nenhum. O residente sofreu, suou e já estava quase desistindo quando conseguiu me trazer ao mundo. Minha mãe não teve forças para assistir ao desfecho: desmaiou, esgotada, antes mesmo de me ver.

Bem, posso imaginar o susto dos presentes assim que olharam para mim. Nasci com a cabeça totalmente pendida para trás, as pernas e os braços atrofiados. E minúsculo. Bem molinho. Contam que o quarto virou aquele rebuliço. Pessoas choravam, outras temiam a reação de minha mãe quando me visse. O único consenso foi que eu não sobreviveria muito tempo. Chegaram a sugerir que nem me alimentassem; afinal, isso apenas prorrogaria um sofrimento inútil.

Meu pai foi o primeiro a se opor. Gritou que eu era seu filho como os outros e me criaria igual. Até quando Deus quisesse.

Esperou a esposa acordar e levou ‑me até ela. Agora é minha mãe quem conta:

  • Claro que foi um choque. Eu comecei a chorar sem parar. Mas, não sei o motivo, talvez minha fé em Deus, senti na hora que seria errado rejeitá ‑lo. Tentei faze-lo mamar. Ele não aceitava. A posição da cabeça impedia que sugasse os peitos. A saída foi oferecer uma misturinha de água com açúcar em uma pequena mamadeira. Claudio começou a beber. E isso o salvou. Pela primeira vez.

As primeiras horas após meu nascimento foram terríveis. Apesar de resignados, meus pais sabiam que o caso era complicado. Eu não poderia viver para sempre de água com açúcar e sofreria todas as complicações de minhas limitações físicas. Minha mãe ainda recorda:

  • Aleomar saiu à procura de algum tipo de leite especial para crianças, algo não muito comum na Monte Santo daquela época. Achou algumas latinhas em uma farmácia distante. Trocamos a aguinha pelo leite e o menino foi resistindo. Ainda naquele primeiro dia, ao anoitecer, chegamos a um impasse: ele sobreviveria àquela noite?

Chegaram à conclusão que não. Tanto que chamaram o monsenhor da cidade, dom José Dias, para me batizar. Eu não poderia morrer pagão. Ele veio rapidamente. Minha madrinha, eleita às pressas, acabou sendo a noiva do residente que realizou o parto, Ednalda, que por sinal era minha prima e, naquele momento, já acompanhava todo o drama em minha casa.

Estranhamente, as horas foram passando e nada de eu morrer. Minha mãe foi entrando em desespero. Seu choro convulsivo era misturado com uma forte sensação de culpa – seria ela a responsável pelas minhas deformações?

Naquela quinta‑feira de 1976, no entanto, ela não tinha forças para elaborações muito aprofundadas. O trabalho de parto a havia deixado exaurida, e os poucos momentos de lucidez eram seguidos por desmaios. As rezas e terços corriam soltos na pequena sala de chão batido. E o tempo foi passando, à espera da minha morte. O dia seguinte raiou e nada de eu partir…

  • Muitos achavam que meu filho não passaria daquela madrugada. Eu não sabia direito como agir para protege‑lo. Chorei por três dias seguidos. E me perguntava: por quê? Por quê, meu Deus. O que eu fiz de errado? O senhor está me punindo? Quem me chamou à razão foi Aleomar. Disse que eu saísse imediatamente daquela cama. Reclamou que eu já estava ali tempo demais, lamentando sem parar. Gritou: se eu fosse você, aproveitava que o padre está aqui na rua, fazendo uma espécie de missa local, e ia até lá dar graças a Deus por nosso filho.

Meu pai, na sua simplicidade, fez com que ela visse que o que estava fazendo era um ato de “revolta espiritual”, e reforçou que a esposa não deveria se culpar por nada. Minha mãe continua:

  • Obedeci. Saí da cama e fui até o padre. Andei poucos metros com Claudinho nos braços. Assim que me aproximei, escutei melhor o que o religioso falava. Ele discorria sobre o Espírito Santo. Não tive dúvidas. Ergui meu filho com os braços voltados ao céu e agradeci pela bênção de ser mãe. Lembrei ‑me de que, pela minha fé em Deus, pelas minhas crenças, mesmo que houvesse feito um ultrassom que indicasse a presença de qualquer deformidade, nunca teria abortado. Não aceito isso. Desde então – aquela manhã, três dias após o parto -, nunca mais chorei de tristeza ou de desgosto. Derramei muitas lágrimas por esse menino, é verdade, mas nenhuma delas de revolta, depressão ou culpa. Apenas de felicidade. Sempre disseram que seria difícil. Que eu deveria pensar bem sobre o calvário que me esperava. Mas hoje digo, sem sombra de dúvidas: não é o Claudio que precisa de mim, sou eu que não conseguiria viver sem ele.

Com tudo isso, penso que boa parte da minha forma de encarar o mundo veio dessa decisão de minha mãe. Minha determinação surgiu naquele dia, pode ‑se dizer. Outra razão credito à minha própria fé. Nasci católico, mas tenho respeito e aceito os pontos positivos de todas as religiões. Tento tirar o que há de positivo, de melhor. Não gosto daquelas que respondem apenas às minhas próprias dúvidas, mas das que fazem de pessoas seres humanos melhores. Não importa que você seja religioso se for uma má pessoa, um ser mau.

Com o espiritismo, por exemplo, aprendi que nada ocorre por acaso. Há sempre causas nascidas nesta ou em existências passadas. De acordo com a doutrina, a minha deformidade, portanto, seria resultado de algo que fiz em uma vida passada, uma vez que nasci assim, sem ter provocado nada de ruim antes. Respeito a crença, mas um trecho da Bíblia, do Novo Testamento, fez com que eu nunca mais pensasse nisso. Está em João 9:1‑3, onde os discípulos perguntam a Jesus após a cura de um cego sobre quem teria pecado para que o mal houvesse ocorrido ao jovem. E o Messias responde: “Nem ele nem seus pais, mas foi assim para que se manifestassem nele as obras de Deus”.

Ou seja, e se as causas de minhas aflições não forem atuais ou anteriores? E se vim assim para dar o meu testemunho? O fato é que não importa saber. Se errei, se os meus pais erraram, isso não altera em absolutamente nada a minha existência. Resolvi que o que mudaria a minha vida é o que eu faria dela. E eu resolvi que lutaria.

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O MUNDO ESTÁ AO CONTRÁRIO)
AUTOR Claudio Vieira de Oliveira