Momento de integração energética e tecnológica

*Por Paulo Guilherme Coimbra

Um dos segmentos brasileiros mais promissores e dinâmicos, o setor de energia vem se consolidando e ganhando destaque nas últimas décadas em fusões e aquisições. Apesar de ser uma indústria que apresenta elevados múltiplos, como os indicadores EV (valor de firma, em inglês, Enterprise Value) sobre Ebtida (lucro operacional), comparados com outros setores, a área fechou 2018 com a terceira maior alta em transações concretizadas nos últimos 20 anos. Nesse período, foram realizadas 55 operações, ficando atrás apenas das médias alcançadas em 2004 e em 2006, com 56 e 61, respectivamente. Uma tendência que vem crescendo é o maior número de negócios fechados que têm como alvo empresas ligadas à energia renovável, totalizando 31 somente no ano passado, o que representa um aumento em relação a 2017.

Esse crescimento vem sendo influenciando por duas fortes tendências. A primeira diz respeito a uma mudança da matriz energética de carbono para renovável. Num país que tem grande potencial solar e eólico, trata-se de um passo na direção de um compromisso pela busca de fonte de energia mais limpa, já confirmado por vários tratados globais e climáticos. Já a segunda está relacionada à entrada de empresas de outros setores na indústria de energia, quer seja pela garantia de suprimento de energia, quer seja para se posicionar num subsetor que ainda deve apresentar crescimento significativo nos próximos anos. Dessa forma, ela se destaca como um setor estratégico para a economia brasileira como um todo por agregar investidores de outros segmentos.

Nesse sentido, temos visto um interesse por energia vindo das empresas de fundos de pensão e private equity. Dessa forma, os investidores veem o segmento como forma de investimento com retorno definido a longo prazo, superior a 20 anos. Além disso, com custos cada vez mais competitivos e com o avanço tecnológico, as últimas aquisições têm mostrado também a entrada de grandes companhias de óleo e gás buscando se posicionar como um player do setor de energia, especificamente, renovável, criando assim uma imagem mais sustentável. Os casos mais recentes foram os das empresas Total que adquiriu o grupo Cobra (Parque Eólico) e a Equinor que comprou um projeto de parque solar da Cimento Apodi e Scatec Solar. Duas gigantes de petróleo de olho em energia.

Vale ressaltar que um outro movimento tem sido frequente em energia nos últimos anos. Com uma demanda estratégica do setor, é comum a aquisição de empresas de tecnologia da informação por segmentos, não só como o de energia, mas também o de petróleo e gás. Esse caminho rumo à transformação digital também tem como objetivo aumentar o potencial de crescimento das companhias. Com o uso de tecnologia, será possível, por exemplo, delinear o hábito dos consumidores final com o uso de medidores inteligentes que podem programar o uso da energia residencial.

Em suma, o que temos visto é que as fusões e aquisições das empresas brasileiras vêm se diversificando e apontando tendências principais: o segmento de óleo e gás vem acoplado em energia num momento de transição energética fazendo um movimento de integração, e os dois estão de olho na tecnologia. Antes, era claro o cenário de investidores estrangeiros entrando na indústria, agora temos um movimento de “cross sector“, ou seja, outros setores realizando transações entre eles. Cabe lembrar que esses novos entrantes trazem um contexto diferenciado, o que torna o ambiente ainda mais complexo e desafiador para as organizações. Nesse caso, o futuro está na sinergia.

*Paulo Guilherme Coimbra é sócio da KPMG.