Não existem vacinas para crises, mas maneiras de minimizar o impacto delas. E a melhor forma continua sendo a prevenção.

Pensar no pior durante os melhores momentos, esse é o início e é por aí que devemos seguir.

Imaginar a falta de recursos nos momentos de caixa abundante – antes de distribuir o que “sobrou” – traz a consciência de que é imperativa a criação de uma reserva para a empresa, assim como para a família.

Um grande, se não o maior, gerador de infelicidade pessoal é a queda do padrão de vida, o que torna quase impossível manter um relacionamento saudável entre os membros de uma família, quando os hábitos precisam ser alterados.

Por isso, a sugestão do padrão de vida ser adequado não ao nível atual de entradas geradas pela empresa, mas, sim, a um cenário cinza, que leve em conta eventos que possam afetar negativamente a situação financeira das empresas e das famílias empresárias.

Antes de subir um degrau nas despesas, deve-se aumentar o nível da reserva e, por conseguinte, da segurança.

Isso, por mais óbvio que possa parecer, não é o que costuma ser feito por grande parte das famílias, que entusiasmadas pela entrada de mais recursos nos momentos prósperos, acaba incorporando rapidamente novos hábitos e práticas que levam a aumentar o consumo de recursos financeiros.

Isso pode ser refletido na compra de uma casa muito maior, na troca de carros com maior frequência, na casa de praia, nas repetidas viagens ao exterior e, como de praxe, acompanhadas de compras.

Os filhos acabam incorporando imediatamente essas novas e prazerosas rotinas às já existentes e podem, com facilidade, acreditar que aquilo será eternizado, vivendo uma sensação ilusória.

E a economia? Fica para depois de pagas as passagens ou para quando acabarem as prestações do novo apartamento.

Mas, via de regra, em muitos casos acaba ficando para mais tarde, ou, num pior cenário, a economia que foi adiada acaba sendo coberta pela empresa, de maneira distorcida.

Péssimo para a família, pior para a empresa, onde funcionários, cientes dos momentos difíceis, acabam acompanhando um ritmo de retiradas desproporcional à realidade – sim, essa notícia corre rapidamente – e nasce aí a insegurança na equipe, que, muitas vezes, passa a observar novas contas, de caráter particular, onerando a empresa.

Esta não é uma regra geral, mas vem se repetindo como frequência ao longo dos últimos anos nas empresas e famílias que tive oportunidade de acompanhar, em especial nas empresas que já não estão bem financeiramente.

Refletir de alguma forma a realidade do momento de crise, no dia a dia das pessoas, é importante para o amadurecimento de todas elas.

No presente pode ser doído, mas, com absoluta certeza, será fundamental para conscientizar a todos que nada fica excepcionalmente bom para todo sempre.

Cancelar uma viagem, adiar a festa, postergar a troca do carro – tudo será sentido pela família e é exatamente essa sensação que todos devem passar – é um preparo para a realidade da vida. Isso ajuda a mitigar os impactos que uma situação como a atual traz para as pessoas, além de promover a capacidade de administrar o problema e sair da crise em condições favoráveis para seguir adiante.

Qual empresário passou a vida sem percalços? Então, por que privar a família de algo que, na dose certa, pode ser tão saudável? A crise não deve passar desapercebida pelos filhos, que devem ficar um ano sem esquiar, por maiores que sejam as reservas, nem para os netos, que devem ver adiada a viagem para a Disney.

Isso faz parte da formação do caráter de uma pessoa, que deve estar preparada para enfrentar as realidades que a vida destina no futuro.

Por Francisco de Cunto consultor da MESA Corporate Governance e membro de Conselhos de Administração