Quando veremos uma retomada no PIB?

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Conforme o esperado, o tombo no segundo trimestre foi bastante forte. De acordo com o IBGE, o PIB no segundo trimestre de 2020 caiu 9,7% em relação ao primeiro, que por sua vez sofreu uma revisão negativa: de queda de 1,54%, foi para 2,5%.

O Brasil, de um modo geral, não conseguiu controlar a pandemia de covid-19 de um modo eficaz como a Alemanha, mas pelo menos evitou o colapso do sistema de saúde na maior parte do país.

E, mesmo assim, esses dois países tiveram quedas econômicas parecidas no segundo trimestre de 2020 em relação ao mesmo de 2019.

De acordo com o site ourworldindata.org, a Alemanha caiu 11,9% e o Brasil 11,4%. Singapura, que foi outro exemplo de sucesso à covid-19, teve uma queda ainda maior, 13,2%. E o Peru uma queda vertiginosa de 30,2%!

Há uma tentativa de análise interessante nesse portal, no qual o desempenho do PIB no segundo trimestre de 2020 em relação à 2019 é comparado graficamente com o número de mortos por covid-19 proporcionalmente à população.

Em geral, quanto menor o número de mortes, maior é o crescimento (ou menor é a queda) do PIB.

Mas essa relação ainda é um pouco fraca, pois a história não terminou, ainda estamos olhando o tombo do passado e falta ver a força da retomada.

Em geral países que têm uma participação elevada do turismo em suas economias, como Itália, Espanha, França, México, Peru, entre outros, tiveram quedas superiores a 15%.

Apesar de ser um país de beleza exuberante, o Brasil costuma ter déficit nas viagens de turismo, mais brasileiros gastam no exterior do que estrangeiros gastam no país. Desta forma, o Brasil foi poupado nesse quesito.

Por ter uma pauta de exportações voltado a commodities agrícolas e minerais, que são considerados bens básicos, a queda da demanda por esses produtos foi pequena.

Além disso, o nosso principal cliente, a China já estava em processo de retomada econômica no segundo trimestre, crescendo 3,2% em relação a 2019.

O dólar caro aumentou a rentabilidade das exportações (alta de 0,5%) e inibiu as importações (queda de 14,9%), que por consequência pode ajudar na recuperação da indústria.

Há que se reconhecer o papel dos diversos instrumentos usados pelo governo federal para tentar atenuar a crise, especialmente o auxílio emergencial de R﹩ 600 ao mês.

No México, que pouco fez nesse campo apesar de ter um governo de esquerda, a queda do PIB foi de 19%.

Apesar de haver muitos empresários e economistas apontando a retomada econômica mais forte do que a esperada, ainda há muitas incertezas no radar.

O governo terá que administrar o “desmame” do auxílio emergencial, que afeta a economia no curto prazo, e as reformas econômicas que favorecem o controle dos gastos públicos e que podem ser a garantia de juros baixos permanentemente.

Ou seja, terá que agir na assistência social sem comprometer o futuro com populismos.

O preço da má gestão da pandemia será cobrado desproporcionalmente mais no setor de serviços, pois este depende de maior interação entre pessoas e que, enquanto não tivermos uma vacina em ação efetiva, muitos clientes mais receosos não voltarão a consumir. Esse será um preço pesado, pois esse setor representa mais de 70% do PIB.

Por Josilmar Cia é graduado em Economia, mestre e doutor em Administração de Empresas. É professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.