Série Estudos: Produtos que dão certo e produtos que dão errado

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Por que certos produtos dão certo e outros não. A primeira coisa a dizer é que não existe receita pronta, pois se existisse, bastaria haver dinheiro suficiente para pagar os detentores dessa tal receita para que ela fosse aplicada a um determinado produto.

Não veríamos empresas grandes como Google, Microsoft, Apple etc. descontinuando determinados produtos, que simplesmente não deram certo.
Isso não quer dizer, por outro lado, que todos os produtos tem a mesma chance de dar certo. Quanto mais estudo de mercado, experiência, competência e boas práticas você adotar no desenvolvimento e disponibilização de seu produto, mais chances ele terá de dar certo.
Tudo isso é muito óbvio, não é? Então vamos fazer algumas classificações sobre o processo de criação de um produto. Primeiramente vamos dividir isso em dois grandes grupos no momento de se iniciar a jornada de um produto no mercado:
1- O produto já existe no mercado;
2- O produto ainda não existe no mercado.
Essa classificação é essencial para as etapas seguintes e vão definir as futuras ações.

O produto já existe no mercado

 Se o produto já existe no mercado e você quer lançar um concorrente, provavelmente é porque você acredita que pode disponibilizá-lo mais barato, ou com melhor qualidade, ou acredita que tem capacidade de divulgá-lo muito bem, ou ainda, porque acredita que pode agregá-lo a outro produto de modo a gerar uma vantagem competitiva.
Porque não basta simplesmente achar que um determinado produto já presente no mercado é um bom negócio e somente por isso você também vai querer fornecê-lo. Se você não puder desenvolver um produto concorrente que tenha pelo menos uma vantagem competitiva, já estará começando com o pé esquerdo.
Ao contrário do que muita gente pensa, trabalhar o desenvolvimento de um produto que já existe no mercado e que é bem sucedido, normalmente tem mais chances de dar certo do que um produto totalmente novo. Isso, é claro, se você conseguir implementar pelo menos uma vantagem competitiva.
Muitas grandes empresas adotam essa estratégia, em várias circunstâncias. Posso fazer um estudo de caso onde há a aplicação dessa estratégia de forma cruzada:

Apple vs. Samsung

 O grande sucesso da Apple no mundo dos smartphones e tablets fez com que várias empresas, dentre elas a Samsung, decidissem entrar nesse mercado. Ou seja, a partir de um caso de grande sucesso, outras empresas decidiram lançar produtos concorrentes. Principalmente no começo, a Samsung deliberadamente adotou em seus smartphones características semelhantes ao iPhone, da Apple, tanto que chegou a haver problemas judiciais entre ambas as empresas sob a alegação de quebras de patente.
É normal uma empresa de grande destaque ser seguida de perto por seus concorrentes. A Samsung, até recentemente, vem adotando com agressividade essa técnica de “siga o líder”. A Apple adotou telas de alta resolução, a Samsung fez o mesmo. A Apple implementou loja de aplicativos, música, filmes, a Samsung fez o mesmo, A Apple implementou sensor de digitais no iPhone, a Samsung fez o mesmo na sua linha de smartphones.
A Samsung obteve grande êxito trabalhando vantagens competitivas em seus produtos. Algumas foram: hardware mais potente, tecnologias mais avançadas (tela com maior resolução, por exemplo) e preço mais baixo. Além disso, a Samsung começou a desbravar novas áreas, fazendo experiências com relação ao tamanho dos smartphones. Entre 4 e 11 polegadas, há uma grande variedade de dispositivos lançados pela Samsung para testar o mercado.
Obviamente que essas experiências geram custos e a Apple não entrou nessa onda imediatamente. Graças a essas experiências, a Samsung criou um novo mercado de smartphones, conhecido como phablets, que são smartphones muito grandes, mas ainda assim mais portáteis do que os tablets.
Apenas depois que esse mercado se consolidou, a Apple decidiu então entrar nele, e em 2014, atualizou o iPhone para 4.7 polegadas (antes tinha 4), entendendo que esse tamanho de tela (ao redor de 5 polegadas) é o mais bem aceito pelo mercado. Aproveitou ainda e entrou também no mercado de phablets, lançando um dispositivo com 5.5 polegadas.
Ou seja, note que tanto a Samsung quanto a Apple usaram a mesma estratégia, em momentos diferentes, lançando produtos após a percepção de aceitação e consolidação deles no mercado.
Uma analogia que se pode fazer sobre essa estratégia é a de uma corrida de bicicleta. O atleta que está na frente dita o ritmo, mas paga o preço por estar na frente. Ele gasta mais energia por conta da resistência do ar. O atleta que vem atrás anda bem próximo e gasta menos energia, pois usa quem está na frente como escudo para sofrer menos resistência do ar.
Ou seja, para se manter na liderança, uma empresa precisa investir em novas tecnologias, experimentar e desbravar mercados. Isso requer fôlego. Identificar a hora certa de lançar produtos, a partir de experiências já bem sucedidas presentes no mercado, pode ser uma estratégia lucrativa para a concorrência.

O produto ainda não existe no mercado

 Muito cuidado antes de afirmar que um produto não existe no mercado. Ele pode existir, mas você simplesmente não conseguiu encontrar ele, por conta de uma eventual baixa relevância dele no mercado, ou porque ele ainda está em fase de expansão e consolidação.
Outra coisa que você deve refletir é: esse produto não existe no mercado porque ninguém pensou nele ainda, ou porque ninguém acreditou que ele poderia dar certo?
Essas considerações são importantes. Desenvolver e disponibilizar produtos que ainda não existem no mercado normalmente é bem mais arriscado do que atuar em um mercado já existente, e pode envolver custos inviáveis de pesquisa e divulgação.

 Benefícios

 O risco de lançar um novo produto no mercado é alto, mas trazem grandes oportunidades de lucro também. Se o produto for bem aceito, você será o pioneiro e tem mais chances de se consolidar rapidamente e garantir uma fatia grande desse novo mercado.

 Pontos contra

 Como o mercado do novo produto ainda não existe, você precisará despertar nos potenciais clientes a utilidade desse produto. Isso pode envolver custos altos. Você não tem como saber de fato se os seus argumentos para a utilidade do seu produto serão bem aceitas, e se os potenciais clientes considerarão o preço justo ou compensador para sua aquisição.
Há ainda potenciais custos com pesquisa e desenvolvimento, que podem aumentar o preço final do produto a ser lançado ao ponto dele se tornar inviável comercialmente.

 Cuidado com produtos substitutos

Um dos erros mais comuns na elaboração de um novo produto é não considerar produtos substitutos, que sejam mais eficientes e/ou mais baratos do que a sua ideia “revolucionária”.
O produto que você quer lançar pode não existir, mas talvez haja opções que suprem as necessidades do mercado que você quer atingir, que sejam inclusive melhores do que o produto em si que você pretende lançar.

 Estudo de caso: Blu-ray vs. Pen drive vs. Núvem

Um caso clássico de produto substituto é o Blu-ray. Primeiro vieram os CDs, que fizeram grande sucesso. Depois veio o DVD, que fez mais sucesso ainda no mercado. O Blu-ray veio então como uma evolução natural do DVD.
O problema é que quando o Blu-ray chegou, já havia outras tecnologias com muita força, como por exemplo o uso de pen-drives, HDs portáteis e armazenamento na núvem. Essas tecnologias eram mais baratas, mais portáteis e mais práticas do que o Blu-ray.
Atualmente, notebooks e computadores raramente vem equipados sequer com drive de DVD, muito menos com Blu-ray.
O resultado é que o Blu-ray já chegou ao mercado sendo um produto obsoleto, e teve apenas uma pequena fração do sucesso dos seus irmãos mais velhos, o DVD e o CD.

 Projete as ações da concorrência

 Então seu produto é novo no mercado? Então ele vai ser um sucesso, pois é muito útil, interessante e viável? Certo, mas como você vai lidar com a concorrência que irá surgir, caso esse produto realmente comece a fazer sucesso?

É importante ter uma estratégia e um estudo sobre isso, pois pode ter certeza de que, se seu produto der certo, outras empresas irão imitá-lo. Você vai patentear a ideia? Há elementos técnicos complexos que lhe darão tempo suficiente para que você se consolide antes da concorrência conseguir lhe alcançar? O pioneirismo irá gerar uma base de usuários / clientes que servirá como um escudo anti-concorrência?

Conclusão

Obviamente há vários outros pontos a serem analisados em produtos que dão certo, e produtos que não dão certo. A existência ou não desse produto no mercado é um desses pontos. Em artigos futuros, vamos nos aprofundar mais nesse assunto. (Passe Digital)