Ao longo dos últimos 20 anos vivemos momentos de crise que impactaram de forma significativa a rotina de populações ao redor do mundo, como o ataque terrorista às torres gêmeas no início do novo milênio, o estouro da bolha imobiliária americana e, agora, a pandemia global provocada pelo novo vírus.

Quando analisamos os impactos das crises sobre as organizações, podemos observar que eventos não planejados, como os mencionados acima, afetam de forma significativa a continuidade e a sobrevivência das companhias em escala global.

Alguns outros fatores, como erros, omissões, falhas nos controles internos, fraudes ou desvios de conduta de natureza interna e/ou externa, também aumentam a exposição das empresas, além de ocasionarem perdas financeiras ou danos de imagem.

O desafio que encontramos ao conduzirmos investigações empresariais em tempos de crises, sobretudo agora durante a pandemia provocada pela Covid-19, está associado a um conjunto de fatores que precisam ser ajustados, pois há restrições nos deslocamentos por parte da equipe, as entrevistas exploratórias ocorrem de forma não presencial, as interações multidisciplinares com os especialistas se tornam menos frequentes e a apresentação de resultados podem gerar dúvidas e esclarecimentos adicionais.

Se por um lado notamos um aumento no número de investigações em eventos de crise, por outro precisamos repensar a forma de conduzirmos o processo de apuração, considerando as novas tecnologias e técnicas na era do Forensic 4.0.

No modelo tradicional, a condução de um processo investigativo considera a realização de atividades de planejamento, identificação dos alvos, entrevistas, coleta, processamento, triagem e análise de dados, produção e apresentação de resultados.

Na abordagem do Forensic 4.0 é reunido um conjunto de técnicas e ferramentas que, quando aplicadas de forma integrada, reduzem o número de falso negativos ou falso positivos, bem como gera uma base de conhecimento que pode ser aplicada em outros eventos similares.

Dentre as principais funcionalidades incorporadas nesta metodologia, podemos elencar alguns elementos que se destacam e merecem a nossa atenção, como a utilização de modelos baseados em casos de uso, a recuperação de arquivos deletados, a transcrição de áudio e reconhecimento facial, o uso de inteligência artificial e do Machine Learning, assim como a criação da base de conhecimento e perfil de risco.

É importante destacar que algumas das técnicas e ferramentas descritas acima já estão disponíveis e podem ser utilizadas.

Alguns exemplos de casos de uso aplicáveis que merecem destaque, sobretudo em momentos de crises, podem ser utilizadas em situações como roubo de identidades e compras não reconhecidas no e-commerce, transações bancárias fraudulentas e lavagem de dinheiro, apuração de vazamento de dados e roubo de propriedade intelectual, operações de M&A e disputas judiciais e extrajudiciais, além de crimes contra a ordem tributária e investigação de denúncias de assédio moral, sexual, fraudes e corrupção.

Em todos os casos mencionados acima, a complexidade da investigação pode ser maior ou menor, dependendo da magnitude e relevância de cada caso.

O que deve ser comum entre todos eles é que o objetivo central de toda a investigação é buscar respostas objetivas para as seguintes perguntas: o que aconteceu, quando aconteceu, como aconteceu, quem é o responsável e se possível quanto foi desviado da companhia.

Adicionalmente, devemos flexibilizar as técnicas aplicadas durante a investigação diante do “novo normal”, mas para isso é importante refletirmos sobre como atuamos no passado, o que funciona ou não no presente e como nos prepararmos para lidar com as novas tecnologias, considerando nosso novo ambiente de trabalho remoto e operações descentralizadas.

Antonio Gesteira é líder da prática de Forensic 4.0 da ICTS Protiviti, empresa especializada em soluções para gestão de riscos, compliance, auditoria interna, investigação, proteção e privacidade de dados.