ROBERTO DIAS DUARTE (*)

Em artigo recém-publicado, mostrei que a contabilidade on-line não é,
conforme a definição científica do termo, uma inovação disruptiva.
Afinal, um dos autores dessa teoria, o professor Clayton M. Christensen,
da Harvard Business School, deixa claro que só há disrupção quando a
inovação no produto ou serviço cria um novo mercado e desestabiliza
os concorrentes que antes o dominavam. Ou seja, uma oferta mais simples
e barata que consegue atender um público antes sem acesso a este
mercado.



Isso ocorre porque as empresas tradicionais tendem a se concentrar em
melhorar os seus produtos e serviços para atender clientes mais
exigentes – e geralmente mais rentáveis. Neste processo, as
necessidades de alguns segmentos de mercado são amplamente atendidas e
as demandas de outros, simplesmente ignoradas. Em outras palavras, as
inovações disruptivas são possíveis porque as empresas tradicionais
ignoram dois tipos de mercado: o de baixo valor (_low-end_) e os novos
clientes.

A fórmula para a criação de uma inovação disruptiva é simples:
identifique quais tarefas os clientes precisam fazer; segmente-os por
tarefas (não por produtos, tamanho, ou qualquer outra característica
demográfica); desenvolva soluções básicas, de baixo custo, que
permitam sua realização.

Sempre tenha em mente: inovações disruptivas necessariamente criam
novos mercados e reestruturam os já existentes. Então, será que está
ocorrendo alguma inovação deste tipo no mercado de serviços
contábeis? A resposta é sim!

Escritórios tradicionais ofertam, com excelência, consultorias
financeira e de custos a seus clientes. Poucas são as empresas que
podem pagar por esse tipo de atendimento especializado. A maioria
absoluta do mercado sequer poderia arcar com poucas horas de um
consultor júnior, quanto mais um serviço contínuo de orientação
nestes setores.



Recentemente, novas tecnologias estão pavimentando o caminho para uma
verdadeira disrupção. Imagine se uma pequena empresa de serviços
pudesse utilizar um sistema em nuvem para registrar suas contas a pagar
e a receber. E que, periodicamente, pudesse importar o extrato bancário
para o sistema, conciliando com o previsto o que foi de fato pago e
recebido?

O benefício imediato seria simples: atrasos em pagamentos e
recebimentos se reduziriam. Esquecimentos, idem. Mas, seria possível
também fazer algo nunca antes imaginado por essa pequena empresa:
analisar seu futuro financeiro! Fazer simulações hoje para encontrar
soluções para problemas que aconteceriam amanhã!

E se esse sistema fosse integrado à contabilidade, apropriando cada
transação nas contas, clientes e centros de custo corretos? O que
aconteceria? O resultado mais óbvio: ganho de produtividade para a
escrituração dos lançamentos contábeis. Mas isso está longe de ser
uma inovação disruptiva.

Contudo, e se o empreendedor recebesse relatórios periódicos com os
resultados e custos, análises práticas sobre receitas, rentabilidade e
custo por cliente, projeto, produto e equipe?

Em resumo, o fornecimento de consultoria financeira por meio de canais
eletrônicos, integrando as tecnologias é, sem dúvida, uma
disrupção, pois fornece soluções muito baratas ao mercado _low-end_
e atende a um público-alvo pelo qual as consultorias tradicionais não
se interessam.

Muitos alegam que esse mercado não existe. Que as pequenas empresas
não querem saber de gestão nem de contabilidade. Tampouco desejam
pagar por isso. A estes sugiro que realizem pesquisas quantitativas e
qualitativas. Que visitem empresas e conversem com empreendedores de
fato.

Lembro sempre do pensamento de Fernando Dolabela, autor do livro
_Segredo de Luiza_, para quem empreendedor é um insatisfeito que usa
seu inconformismo para criar soluções, serviços, produtos. O
insatisfeito que só reclama não é empreendedor, é reclamador!

Há muitos reclamadores no Brasil. Em todas as atividades econômicas e
profissões. Mas existem milhões de empreendedores de verdade em nosso
país. E eles estão, a cada dia, mais bem instruídos e informados.

Em meio a 9 milhões de empresas legalmente constituídas não é
possível conceber que todas tenham sido criadas por reclamadores. Essa
seria uma visão por demais pessimista do mercado e que contraria dados
concretos apontados em pesquisas como a Global Entrepreneurship Monitor
(GEM).

Aquele estudo aponta que a taxa total de empreendedores (iniciais e
estabelecidos), como percentual da população entre 18 e 64 anos, foi
de 34,5%. Ou seja, estima-se que haja cerca de 45 milhões de
empreendedores no Brasil. O mesmo levantamento aponta que 16% deles têm
educação superior completa. Além disso, 13% dos empreendedores
buscaram apoio de órgãos como o Sebrae, dedicados ao desenvolvimento
do empreendedorismo. Ora, quase 6 milhões de empreendedores querem
apoio aos seus negócios. Este número não pode ser desconsiderado, em
especial por profissionais que tenham como objetivo suportar a gestão
empresarial.

Ocorre que o empreendedor ou o gestor não quer mesmo receber
relatórios ilegíveis ou codificados no mais rebuscado “contabilês”.
Ele deseja informação sobre o seu negócio. Qual projeto dá
resultado, qual o maior custo, quem é bom cliente ou dá prejuízo.
Entender o que deve fazer para ser mais eficiente, produzir e atender
melhor.

Entretanto, a contabilidade, assim como a tecnologia, é meio, não fim.
E isso, em hipótese alguma, desmerece a ciência da riqueza. Pelo
contrário. O prestador de serviços que ainda não compreendeu sua real
missão de servir ao outro, ao invés de satisfazer apenas aos seus
anseios, não é digno da atividade que executa. Essa é a verdadeira
missão de um profissional de sucesso. E, sem entender quais são os
interesses do outro, nada pode ser feito.

Como disse nosso saudoso professor Antonio Lopes de Sá: “Muita gente
não sabe efetivamente o que é contabilidade. Porque entende que
contabilidade é apenas escrituração. É apenas um balanço que se
demonstra, um lucro que se apresenta, esquecendo-se de que isso é
apenas informação. E de nada adianta informar se não sabemos o que
fazer com a informação. (…) Ou seja, a explicação dos fatos, a
interpretação dos acontecimentos compete exatamente ao contador”. E
ainda completa afirmado que a prosperidade das empresas está nas mãos
dos administradores “assessorados pelos técnicos que competentemente
conhecem sob que condições a riqueza se torna próspera. É isso que
faz da contabilidade uma ciência!”.

Então, utilizar sistemas financeiros em nuvem integrados aos sistemas
contábeis torna-se uma inovação disruptiva se, e somente se, estas
tecnologias viabilizam a aplicação da consultoria contábil a baixo
custo para mercados ainda não atendidos.

E, novamente voltando ao professor Christensen, para implementar essa
inovação disruptiva o empreendedor contábil precisa realizar uma
segmentação de mercado por tarefas, identificando quem são os
empresários e gestores que realizam análises financeiras e contábeis
com alto custo operacional ou precisam realizar (e não o fazem,
justamente por inviabilidade de custo).

Recentemente realizei uma pesquisa utilizando a metodologia _Net
Promoter Score_ coletando 2.067 respostas de empresas clientes de
escritórios contábeis em todas as unidades da Federação.

Dentre as inúmeras informações obtidas, pude constatar exatamente
essa demanda por uma atuação mais consultiva por parte dos
escritórios contábeis. O fato é que os 33% dos escritórios
classificados de forma extremamente positiva pelos seus clientes já
atuam assim.

Portanto, cabe aos 67% restantes buscarem maneiras de atender às
necessidades de segmentos até então ignorados.

Um caminho bastante interessante é utilizar-se da tecnologia para levar
consultoria a 6 milhões de empreendedores que procuram orientação
sobre seus negócios. Isso, sim, é inovação disruptiva!

_(*) ROBERTO DIAS DUARTE É SÓCIO E PRESIDENTE DO CONSELHO DE
ADMINISTRAÇÃO DA NTW FRANQUIA CONTÁBIL, PRIMEIRA DESTE SETOR NO
PAÍS._