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Preço de alimentos e juros ajudaram a frear inflação em 2023

Preço de alimentos e juros ajudaram a frear inflação em 2023

29/12/2023 às 08h42 Atualizada em 29/12/2023 às 11h42
Por: Leonardo Grandchamp
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Foto: Valter Campanato / Agência Brasil
Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

O comportamento dos preços dos alimentos e a política monetária, que impôs juros altos na economia em 2023, foram fatores que ajudaram a inflação ficar controlada neste ano que termina. A avaliação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil, nesta quinta-feira (28), quando foram divulgados dois índices de inflação.

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O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), tido como a prévia da inflação oficial do país, fechou 2023 em 4,72%, o menor resultado dos últimos três anos. O dado é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Calculado pela Fundação Getulio Vargas, o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) apresentou deflação no ano, ou seja, a média dos preços ficou em queda de 3,18%. O resultado marca uma inflexão do índice, que chegou a fechar 2020 em 23,14%. O ano de 2021 também ficou na casa de dois dígitos, 17,78%. Em 2022, sinalizou desaceleração, terminando em 5,45%.

Fatores

De acordo com o economista e professor do Ibmec, Gilberto Braga, os dados refletem acertos na política macroeconômica do governo e do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), responsável por definir a taxa básica de juros da economia, a Selic.

Ao longo do ano, a Selic foi mantida em níveis elevados como uma estratégia para desestimular a economia e, por conseguinte, controlar a inflação. Iniciando o ano em 13,75%, a taxa encerrou 2023 em 11,75%, após quatro cortes consecutivos no segundo semestre.

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Braga observa que há setores de preços que ainda exercem pressão nos índices, especialmente os aluguéis, que têm aumentado mais do que a inflação média da economia. Contudo, ele destaca que "o preço dos alimentos, de maneira geral, tem apresentado queda, o que equilibra de forma positiva as pressões inflacionárias".

O professor do Ibmec antecipa a expectativa de continuidade dessa tendência para o próximo ano. "Para 2024, a perspectiva é de que esse comportamento nos preços permaneça, com a inflação tendendo a diminuir".

No entanto, Braga aponta riscos externos que podem afetar o cenário brasileiro. "A pressão externa, principalmente devido aos conflitos bélicos envolvendo Rússia e Ucrânia, e no Oriente Médio com a ofensiva israelense na Faixa de Gaza, impacta nos preços do petróleo, seguros e no livre comércio internacional", destaca. Apesar dessas ameaças, ele expressa uma expectativa bastante positiva para 2024.

Commodities

Segundo o pesquisador André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), um fator determinante na configuração da inflação em 2023 foi o comportamento dos preços das commodities, que são matérias-primas básicas negociadas internacionalmente, tanto agrícolas quanto minerais.

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"Na esfera agrícola, produtos como soja, milho e trigo, que constituem insumos para diversos alimentos, experimentaram quedas significativas nos preços aos produtores". A soja, por exemplo, registrou uma redução de 21,92%, enquanto o milho teve uma queda ainda mais expressiva, atingindo 30,02%.

Braz destaca que o comportamento do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) reflete uma espécie de "reversão" do impacto inflacionário gerado pela pandemia entre 2020 e 2022. "Devido às safras, que foram bastante favoráveis tanto no Brasil quanto em outros países produtores de grãos, tivemos uma redução expressiva nos preços. Isso contribuiu para compensar um pouco o período de aumentos acentuados", explica.

Apesar de o IGP-M anunciado nesta quinta-feira representar o menor já registrado para um ano completo (-3,18%), Braz observa que o índice indica uma tendência de aceleração. Em julho, a queda acumulada em 12 meses era de 7,72%. "Está acelerando, aproximando-se cada vez mais de zero e caminhando para território positivo. Números negativos são incomuns para o IGP-M, pois, em condições normais, a trajetória desses preços é ascendente", contextualiza. Em dezembro, o índice mensal ficou em 0,74%.

IPCA

Sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), André Braz indica que o resultado de 0,40% em dezembro ficou acima das expectativas. Isso se deveu à concentração, no mês, de reajustes em preços controlados, como água e esgoto, energia, ônibus, trem e metrô em diversas cidades do país.

Especificamente para dezembro, o economista da FGV destaca a surpresa nos preços de alguns alimentos, especialmente aqueles com características sazonais. "Não foi um aumento generalizado, mas sazonal, afetando produtos que normalmente têm oferta menor no verão, prejudicada pelo clima, como itens de feira livre. Por exemplo, hortaliças, legumes e frutas ficaram inflacionados devido a esse clima mais desfavorável."

Outro fator influenciador foi a alimentação fora de casa. "Nesse período de festas e férias, as famílias costumam comer em restaurantes e lanchonetes, o que geralmente leva a um aumento nos preços do menu devido à demanda."

Apesar dessa sinalização em dezembro, Braz destaca que, ao longo do ano, o preço dos alimentos teve um comportamento positivo para a economia brasileira, contribuindo para que a inflação oficial ficasse abaixo do esperado no início do ano, quando o mercado estimava o IPCA perto de 5,5%. O IPCA-15 revelou que o grupo de alimentos e bebidas teve um aumento de 0,83% em 2023.

"Isso representa muito pouco em relação à inflação média de 4,72%. Em termos reais, a alimentação não teve um aumento de preço. Isso foi positivo, pois a alimentação tem um impacto maior no orçamento de famílias de menor renda, permitindo que essas famílias tenham espaço para consumir outros itens", observa.

O IPCA fechado do mês de dezembro e do ano de 2023 será divulgado em 11 de janeiro. Braz estima que o número seja próximo de 4,45%. Se essa estimativa se concretizar, estará dentro da meta estabelecida pelo Banco Central, que é de 3,25%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, ou seja, o limite superior é de 4,75%.

Para 2024

Para o próximo ano, André Braz, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), compartilha a visão otimista, assim como Gilberto Braga do Ibmec. Braz prevê que o IPCA encerre 2024 em torno de 4%. Contudo, ele identifica desafios, como o conflito entre Rússia e Ucrânia e a ofensiva israelense. Além disso, o fenômeno climático El Niño, que impacta safras globalmente, é uma preocupação adicional.

Braz destaca que as variações nos preços ao produtor, influenciadas pelo El Niño, podem se refletir nos preços ao consumidor, representando um desafio para o próximo ano. No cenário doméstico, ele aponta que a política fiscal, relacionada aos gastos públicos, pode influenciar a inflação, especialmente se houver dúvidas sobre o cumprimento da meta orçamentária. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, expressa a intenção de atingir um déficit zero em 2024.

Braz alerta para a possibilidade de desvalorização cambial em caso de ameaça à meta fiscal, o que poderia resultar em aumento nos preços de importação.

Juros

O economista do Ibre destaca que a política de juros do Banco Central desempenhou efetivamente seu papel em conter a inflação ao longo de 2023. No entanto, ressalta que a taxa Selic, mantida em 11,75%, permanece elevada, representando um desafio para o crescimento econômico, a geração de empregos e a renda do país.

Apesar dos obstáculos mencionados, Braz mantém a perspectiva de que a inflação seguirá uma trajetória controlada, o que permitirá novas reduções na taxa básica de juros. "Acredito que o Banco Central terá condições de continuar implementando cortes na taxa, mesmo com esses desafios em vista. É provável que a Selic encerre o próximo ano em torno de 9%", afirma.

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