Pandemia: Três problemas a lidar na gestão financeira das empresas

0

Entramos na primeira quinzena de junho, e a pandemia COVID-19 segue presente no mundo todo e nossas atividades pessoais e profissionais seguem alteradas.

Nesse artigo, eu gostaria de discutir três pontos críticos às empresas no cenário atual e passar algumas dicas de como elas, especialmente as pequenas e médias empresas, podem agir frente a eles.

Problema 1: O Caixa é o Rei (“Cash is King”).

O problema mais imediato que as empresas precisam resolver é ter o caixa necessário para honrar todas as obrigações que irão aparecer durante o período da Pandemia. Naturalmente, estou olhando para o futuro aqui, mas se a empresa não honrou dívidas no passado recente, essas dicas continuam válidas.

A primeira ação é olhar para suas contas de Ativo Circulante e identificar as que mais rapidamente podem ser transformadas em caixa. Tipicamente, além do Caixa em si, as empresas possuem três contas de Ativo Circulante: Aplicações financeiras, Contas a receber e Estoque.

O ideal é começar transformando as aplicações financeiras da empresa em caixa. Naturalmente, é preciso avaliar qual a taxa de retorno sacrificada na venda dessas aplicações. Se for muito significativa, pode-se pular ao próximo item da lista. Mas se a taxa for aceitável (que é o mais provável no caso brasileiro), essa será a primeira ação a ser executada.

A segunda alternativa imediata é a antecipação do recebimento das Contas a receber, junto aos seus clientes ou junto a agentes do sistema financeiro.

Naturalmente, assim como a sua empresa, talvez seus clientes também estejam com problemas de liquidez e não terão condições de antecipar pagamentos à sua empresa (em realidade, mais provavelmente, eles também pedirão a postergação dos seus pagamentos).

Nesse caso, sua empresa poderá acessar os players do sistema financeiro, como bancos ou empresas de factoring.

A terceira alternativa é a venda dos seus estoques. Novamente, é necessário ficar atento a possíveis perdas de margem na venda dos estoques. Mas, no cenário emergencial atual, acessar liquidez pode ser mais importante que manter margens, de tal sorte que você pode vender seus estoques a valores relativamente mais baixos que os usuais.

Olhando para o lado do Passivo circulante, tipicamente, as empresas possuem três contas principais: Contas a pagar (aos fornecedores), Empréstimos e financiamentos de curto prazo, e Passivos relacionados à produção (salários e outros).

Negociar prazos mais extensos de pagamentos aos seus fornecedores deverá ser sua primeira opção. Lembre-se, no entanto, que possivelmente seu fornecedor está em situação semelhante à sua. Logo, talvez seja melhor manter a previsão de pagamento ao fornecedor que o ver incapaz de lhe fornecer no futuro.

A segunda alternativa é negociar o pagamento das suas dívidas. Aqui a boa notícia é que, desde o início da pandemia, os grandes players do sistema financeiro (incluindo o BNDES), já viabilizaram mecanismos para postergação do pagamento de dívidas das pequena e média empresas.

Já sobre os passivos relacionados à produção, talvez você queira consultar as Medidas Provisórias 927, 936 e 994 desse ano, que regulamentam questões associadas a tele-trabalho, banco de horas e alterações temporárias nos contratos de trabalho.

Problema 2: aumento da aversão ao risco no nível mundial

O segundo grande problema que as empresas devem atacar nos tempos atuais de crise é o aumento da aversão ao risco por parte de, virtualmente, todos os agentes econômicos da sociedade. Isso leva à decisão, feita pelas empresas, mas também pela sociedade como um todo, de diminuição de gastos e de postergação de investimentos de risco.

É fácil perceber esse problema no nosso dia-a-dia, afinal ninguém sabe quando a crise irá acabar.

Sem conseguir planejar com precisão o momento de fim da crise, as famílias decidem postergar gastos relevantes, como compra de imóveis, viagens e consumo e despesas diversas. Por sua vez, as empresas diminuem seus investimentos em capacidade de prestação de serviços, capacidade produtiva, etc.

Aqui, talvez, a melhor alternativa para pequenas empresas seja desenhar contratos e arranjos que visem o longo prazo e que diminuam a incerteza associada às suas atividades. Por exemplo, idealização de contratos de vendas aos seus clientes de 24 ou 36 meses, substituição de custos fixos por custos variáveis, tomada de novas dívidas a taxas fixas ao invés de taxas variáveis (se possível ou necessário), etc.

Virtualmente, qualquer ação que aumente a previsibilidade de longo prazo da empresa será bem-vinda nos tempos atuais.

Problema 3: aumento da assimetria informacional

O terceiro grande problema que o cenário atual está criando às empresas é o aumento da assimetria informacional no sistema financeiro como um todo. Esse problema nasce da simples constatação de que, em uma transação financeira entre dois agentes quaisquer, cada agente possui limitada informação sobre as condições financeiras do outro agente.

No sistema financeiro, isso tipicamente leva ao aumento das taxas de dívidas, afinal os agentes financeiros nunca conseguirão ter o mesmo nível de informação acerca da empresa que a própria empresa.

Esse problema está particularmente elevado nos tempos atuais. Trocando em miúdos, se as empresas não conseguem visualizar com precisão o seu próprio cenário de amanhã, seriam os bancos capazes de o fazer? Naturalmente não. Em tempos de maior incerteza, como os atuais, a assimetria informacional é maior.

Caberá a empresa tomar iniciativas que diminuam a assimetria informacional. Isso inclui, por exemplo, criação e divulgação aos bancos dos planejamentos financeiros que a empresa tem.

Preparar demonstrações financeiras (se sua empresa não tem, essa é uma boa hora de prepara-las) e disponibilizá-las ao banco é uma boa forma de aumentar a transparência sobre a situação financeira da empresa e tem o benefício adicional de melhorar o seu relacionamento com o próprio banco.

Além disso, aumentar a comunicação interna acerca dos problemas da empresa também facilita na sua reorganização. Em especial, melhorar a divulgação de informação entre os departamentos operacional e financeiro garante que todos estejam na mesma página e possam tomar decisões com critérios convergentes.

Por: Henrique Castro Martins, professor de finanças e Coordenador do MBA de Finanças Corporativas do IAG – Escola de Negócios da PUC-Rio