A mulher contabilista e a contabilidade do futuro

O Grupo DPG entrevistou a Marcia Ruiz Alcazar, sócia-diretora comercial da contabilidade SETECO, Contadora com MBA em Gestão Executiva Internacional pela FIA/USP, atua no segmento a 30 anos, mantendo ativa participação nas entidades de classe CRC, IBRACON, SINDCONT, SESCON e ANEFAC. Responsável pelo relacionamento com clientes e desenvolvimento de novos projetos, além de ser representante da direção no Sistema de Gestão da Qualidade (PQEC-ISO9001 / ISO 9001:2008). Exerce também o cargo de conselheira do CRCSP desde 2006 e atualmente atua como vice-presidente de administração e Finanças. Não da pra ficar sem ler essa entrevista excelente.

Hoje no Brasil, as mulheres representam quase 50% dos profissionais graduados em contabilidade. Porém, a mulher ainda tem presença relativamente baixa em relação aos cargos de liderança nos principais órgãos que representam a classe. São 27 Conselhos Regionais de Contabilidade e apenas oito mulheres são presidentes.

Por outro lado, percebe-se o fortalecimento da participação da mulher profissional da contabilidade em outras frentes de liderança, como nas redes sociais por exemplo. As mulheres dominam a criação de grupos relacionados à contabilidade no Facebook. Existem grupos com mais de 50.000 membros, administrados em sua maioria por mulheres contadoras. O grupo do Facebook – Contabilidade – Perguntas e Respostas – é um bom exemplo disso.

Analisando a quantidade de mulheres matriculadas nas universidades cursando Contabilidade, muito em breve, as mulheres serão maioria absoluta neste segmento.

1 – Como está a situação das profissionais da contabilidade registradas?

Marcia – O quadro mostra o atual número de profissionais registrados, divididos por sexo. Essa divisão aponta para a realidade de que o número de mulheres exercendo a profissão contábil, como contadoras ou técnicas, cresceu 83,94% na última década, enquanto o número de homens cresceu 28,08%. Se os números seguirem a mesma tendência dos últimos dez anos, em 2025 o número de contadoras será maior em pelo menos 1,44% e em 2034 teremos mais mulheres do que homens na profissão.

fluxo-de-caixa-recovered-recoveredFonte: CFC

2 – Quais as dificuldades enfrentadas pelas mulheres que ingressam no mercado de trabalho como profissionais da contabilidade?

Marcia – Para responder essa pergunta tenho que lembrar das conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres.

Sem dúvida, a coragem e ousadia das nossas antecessoras e progenitoras nos dão hoje infinitas possibilidades. As mulheres estão cada vez mais acumulando conquistas profissionais, sociais, amorosas e a feminilidade não é barreira para se impor quando necessário e conquistar a sua independência.

As pessoas não investiriam tanto tempo no assunto “empoderamento feminino” se de fato fosse algo sem importância.

O assunto é tão relevante que em 2010 a ONU lançou “Os Princípios de Empoderamento das Mulheres” (Women Empowerment Principles – WEPs, sigla em inglês), sete princípios para ajudar as empresas e as comunidades a entender como dar poder para mais mulheres.

São inúmeras as dificuldades no mercado de trabalho, inclusive para as profissionais da contabilidade e seguir os princípios estabelecidos pela ONU pode de fato assegurar a igualdade de gêneros tão desejada por todos nós.

3 – Quais ações os movimentos do Empreendedorismo Contábil Feminino tem tomado para garantir a retenção e a especialização de um número maior de mulheres nas empresas de contabilidade?

Marcia – Muito se discute hoje que um dos pilares da sustentabilidade do empreendedorismo é o da igualdade de gêneros. Entender como funciona o empoderamento feminino é o primeiro passo para começar a praticá-lo em casa, no trabalho, com os vizinhos ou em qualquer outro lugar.

4 – Existe algum tipo de luta para garantir a igualdade dos cargos e salários entre homens e mulheres que exercem a profissão?

Marcia – Infelizmente esse não é um assunto restrito à classe contábil, ou aos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Essa é uma preocupação global e a ONU Mulher nos inspira as boas práticas quando o assunto é empoderamento feminino.

Por exemplo, se você trabalha em cargo de liderança, é seu papel incentivar mais mulheres a ocuparem cargos de liderança.

Deveriam ser adotados os mesmos critérios de promoção, independente de gênero. É uma triste realidade, mas constata-se ainda que mulheres tendem a ser mais exigidas, comprovar experiência de fato, enquanto que os homens muitas vezes são promovidos por apresentarem um potencial futuro de desenvolvimento pessoal.

Talvez por isso que hoje o mercado de trabalho conta com uma participação maior das mulheres nos cursos de formação, pós-graduação e especializações. No mercado de trabalho contábil observa-se que as mulheres tem mais êxito no exame de suficiência do que os homens.

Quando tratamos do tema igualdade de gêneros, você empodera uma mulher, quando todas as mulheres e homens são tratados de forma justa no trabalho, respeita e apoia os direitos humanos e a não discriminação.

5 – Pesquisas revelam que empresas que possuem liderança feminina, apresentam maiores e melhores resultados financeiros. Os estudos mostram que fatores como inovação, eficiência, melhorias no ambiente de trabalho e satisfação dos colaboradores, são características marcantes da liderança feminina e é o que garante resultados financeiros surpreendentes para estas empresas. Qual a relação que você faz desses dados com o desempenho da mulher atuando em todos os setores nos escritórios contábeis?

Marcia – Entendo que estamos falando de competência, habilidade e atitude e isso não está relacionado a qualquer gênero, mas sim as características do comportamento humano.

Padrões mais agressivos, fortes e exigentes são, por exemplo, características da energia masculina que muitas mulheres têm e padrões mais tolerantes, amorosos e flexíveis são caraterísticas da energia feminina que muitos homens têm também. O que quero dizer é que não existe gênero melhor do que o outro, mas o conjunto das qualidades adquiridas por cada indivíduo é que faz a diferença e essa diferença impacta diretamente nos resultados.

A Revista Brasileira de Contabilidade divulgou em 1990 um depoimento muito interessante, que me parece muito apropriado aos dias de hoje. “A história da mulher contabilista não é diferente da história da mulher como parte integrante da sociedade e que vem participando historicamente de sua construção. Não existe diferença entre a atuação feminina e a masculina na Contabilidade. O trabalho é o mesmo. O resultado é o mesmo. A diferença está na visão de quem estabelece diferenças entre homens e mulheres profissionalmente. Mas, em coisa desse tipo, as mulheres estão ganhando terreno e vencendo, aos poucos, esta árdua batalha.”

6 – Quais as ações do CRCSP para permitir que as mulheres alcancem todo seu potencial pessoal, profissional e econômico, e qual a contribuição da entidade para o desenvolvimento do futuro da mulher na profissão contábil?

Marcia – No CRCSP, vivemos um momento único na história da Contabilidade brasileira, onde as mulheres se destacam pela liderança feminina. Neste ano de 2016, duas mulheres ocupam a vice-presidência da entidade. Ocupo o cargo de vice-presidente de Administração e Finanças e a conselheira Neusa Prone Teixeira da Silva é a vice-presidente de Registro. Esta é a primeira vez que uma mulher ocupa o cargo de vice-presidente de Administração e Finanças. A entidade tem ainda 18 conselheiras eleitas e 24 delegadas nomeadas.

O CRCSP conta com a Comissão CRCSP Mulher, que é formada por mulheres que atuam em diferentes segmentos da Contabilidade. São empresárias, funcionárias da área pública, peritas que conciliam suas profissões com as atividades realizadas no Conselho. Elas ocupam cargos de conselheiras e delegadas (representantes) do CRCSP no interior do estado. O objetivo da Comissão é trabalhar para promover o constante aprimoramento técnico cultural da mulher que atua na Contabilidade; incentivar a participação ativa na vida política e social da comunidade; preparar a mulher para um mercado profissional extremamente competitivo; motivar e preservar com ousadia e equilíbrio a conquista do espaço profissional.

O objetivo do CRCSP é que todos tenham condições de exercer a profissão de forma plena.

7 – Como se sente com o fato inédito do CRCSP ter duas vice-presidentes?

Marcia – Honrar a escolha pela profissão contábil me deixa muito orgulhosa, uma escolha que fiz para minha vida, pautada pela conduta ética, pelo trabalho sério e pela lealdade ao lutar por uma classe contábil unida em nosso estado. Esse é um marco conquistado por uma equipe ousada e de verdadeiros defensores da profissão contábil.

8 – Quais são os maiores desafios da mulher profissional da contabilidade? São diferentes dos desafios dos seus colegas do sexo masculino que atuam na profissão? 

Marcia – Nós profissionais da contabilidade fizemos um juramento ético perante a sociedade e devemos honrá-lo todos os dias. Ao recebermos o grau de bacharel em Ciências Contábeis, juramos, perante Deus e a sociedade, exercer a profissão com dedicação, responsabilidade e competência, respeitando as normas profissionais e éticas.

Juramos pautar nossa conduta profissional observando sempre os nossos deveres de cidadania, independentemente de crenças, raças ou ideologias, concorrendo para que nosso trabalho seja um instrumento de controle e orientação útil e eficaz para o desenvolvimento da sociedade e o progresso do país. Comprometemo-nos, ainda, a lutar pela permanente união da classe contábil, o aprimoramento da Ciência Contábil e a evolução da profissão.

Esses são os desafios! Independente de gênero é o compromisso que cada contador e contadora deve sempre honrar.

9 – Qual a mensagem que você deseja passar para todas as mulheres que já empreendem na área da contabilidade e também para aquelas que estão ingressando na profissão, em relação à Contabilidade do futuro e a participação das mulheres?

Marcia – Essa responsabilidade é sua, é minha, é nossa, está em nossas mãos. Empodere!

Como profissionais da contabilidade temos um papel importante, o de inspirar pessoas às melhores práticas de gestão para as melhores decisões.

10 – E nas universidades, como estão as mulheres?

Marcia – Nos cursos de Ciências Contábeis, os números relacionados às mulheres também só aumentam. De acordo com o Conselho Federal de Contabilidade (CFC), atualmente, 69% das vagas já são ocupadas por mulheres.

11 – Há uma grande adesão das mulheres às redes sociais. Isso também acontece no facebook do CRCSP?

Marcia – No facebook do CRCSP temos como destaque a forte presença feminina, maior que a presença masculina, e nesta faixa etária da maioria dos fãs: de 25 a 34 anos.

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Matéria: Seteco

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