Em razão de ter produzido uma obra sobre temas matemáticos, na qual inseriu matéria contábil, Luca Pacioli celebrizou-se como um grande difusor dos critérios de escrituração mercantil.

Embora não seja ele o autor das partidas dobradas, nem um inovador de coisa alguma nos procedimentos destas e tão pouco o autor do primeiro livro de difusão contabilística, coube-lhe, todavia a primazia da primeira edição “impressa”, pois, várias outras obras, produzidas há milênios, eram todas manuscritas.

A vida desse ilustre personagem merece análise, para melhor identificação da obra com um homem que inaugurou uma nova fase na literatura da Contabilidade, cujos efeitos jamais se interromperiam. A profusão de referências feitas sobre o livro que mais se difundiu sobre a escrituração contábil por partidas dobradas, em razão de ter sido o primeiro a ser impresso pelo processo industrial de Gutemberg, teouxe, também, uma dúvida sobre o verdadeiro nome do autor.

PACIOLO ou PACIOLI, é a interrogação que se faz a respeito do sobrenome do escritor da obra que divulgou o processo das Partidas Dobradas (1494) e que rompeu uma inércia de quase três séculos em matéria de literatura contábil

Encontramos o uso dos dois sobrenomes, ora bem aplicados e outras erroneamente referidos. Ambos, todavia, por uma fidelidade à origem, podem ser usados, mas, admito, para que sejam adequados no emprego, com a observância das particularidades relativas às raízes idiomáticas. Isto porque, em verdade, o que aconteceu, no aparecimento das duas designações, foi uma peculiaridade no antigo idioma italiano, falado na época de Paciolo, na Toscana (terra do denominado pai da língua italiana, Dante Alighieri).

O sobrenome terminado com a letra “i”, quando junto ao nome, conservava tal letra; portanto, ao dizer nome e sobrenome juntos usava se falar, por exemplo: Michelangelo Buonarotti; logo, também se dizia : LUCA PACIOLI. Quando, entretanto, se pronunciava só o sobrenome, transformava se o “i” em “o” e, então, dizia se IL BUONAROTTO, logo, também, IL PACIOLO.

Portanto, o correto era dizer se: LUCA PACIOLI, ou, então, IL PACIOLO.

Não são sobrenomes diferentes, mas a forma de dizer um mesmo sobrenome: se “junto do nome” (com “i”), ou “sozinho” (com “o”). Existem referências de que o nome completo do Frei seria: LUCA BARTOLOMEO PACIOLI, ao que se acrescentava DI BORGO DI SAN SEPOLCRO. O nome Bartolomeo, todavia, era o do pai de Luca e nas obras maiores que o Frei editou não há referência, ao nome Bartolomeo.

Era também comum, por exemplo, dizer-se “Leonardo fi Bonacci”, ou Leonardo di Bonacci, o que entre nós equivaleria a: “Pedro filho de João” (o mesmo costume se encontra em muitos outros países, quer da Europa, quer da Ásia; os árabes, por exemplo, usam, ainda, “Ibn” e que é a expressão “filho”, como os espanhóis o sufixo “ez” para expressar “filho de” como em “Rodriguez”, para significar “filho de Rodrigo”).

Local de nascimento e a época de Paciolo

 

Cidade onde nasceu o Frei Luca Paciloi

Luca Pacioli nasceu em um vilarejo, em seu tempo denominado “Borgo di San Sepolcro”, hoje, apenas, “Sansepolcro”, província da cidade de Arezzo, na região da Toscana, na região central da Itália, acredita se, por volta de 1445 (dúvidas, também, foram levantadas a respeito). Teria, pois, 49 anos, quando se editou em Veneza a sua “Summa de Aritmética, Geometria, Proporção e Proporcionalidade” (na qual está inserido o Tratado de Computo e Escrituração, ensinando a partida dobrada)

Sansepolcro ergue se no alto de uma colina; ainda hoje conserva seus ares medievais, o Palácio, a Catedral, algumas igrejas da época, um seminário; ainda hoje é um local que transpira a respeitabilidade dos gênios qua abrigou e dos que ali nasceram (dentre eles bastaria citar, além de Paciolo, Piero della Francesca). Paciolo foi coevo de Leonardo Da Vinci (1452 1514), Michelangelo (1475 1564), Maquiavel (1469 1527), Lourenço, o Magnífico (1449-1492), Girolamo Savonarola (1452-1498), Piero della Francesca (1420-1492) e de muitas personalidades de uma “época de ouro” da civilização Mundial que resplandeceu na Itália.

Quando Luca nasceu, Cosme de Médici, então já banqueiro do papa, era o senhor de Florença (1434 1464). Luca era ainda era muito jovem quando Lourenço o Magnífico (1449-1492), sucedendo a Cosme, assumiu o Poder em Florença (1469).

Viveram, também naquela época, os magníficos Sandro Boticelli (que produziu o famoso quadro da Primavera, em 1477), Marsílio Ficino (o grande filósofo que recuperou a imagem de Platão, superando a Aristóteles) (1433-1499), o humanista e poeta Angiolo Poliziano (1454 1494).

Paciolo mal saíra da adolescência quando na Itália se inaugurou a indústria de imprimir, pelo processo de Gutenberg (a 1ª obra impressa surgiu na península em 1465, ano em que por coincidência vinha ao mundo o magnífico Maquiavel), mas, já adulto, quando nasceu Rafael Sanzio (1483) o grande gênio da pintura, tendo vivido a época dos grandes descobrimentos, ou seja, a de Vasco da Gama (1469-1524), Cristóvão Colombo (1451-1506), Américo Vespúcio (1454-1512) e Pedro Álvares Cabral (1460-1520).

Se analisarmos as revoluções causadas com a imprensa e com o Novo Mundo, somada a novos posicionamentos nas artes e no pensamento, é possível compreender o que se passava na mente de um homem de inteligência.

A tudo se acrescenta o entender que o tempo de Paciolo foi aquele dos gênios e de uma expressiva metamorfose histórica.

Não só a descoberta, pelos europeus, de novas terras mudou mercados e visões, mas, também, se viu a grande ascensão muçulmana que abalaria até preconceitos do clero.

A queda de Constantinopla em 1453, como conquista de Maomé II, provocou o fim do milenar império romano, ensejando mudanças políticas como as da paz de Lodi (1454) entre os Visconti (poderosos senhores de Milão desde 1277) e Veneza (quando esta também perdia o predomínio do mediterrâneo), a conspiração dos Pazzi (tentando derrubar os Médici) e que resultou no assassinato de Juliano de Médici (1478) e o da conjuração dos barões em Nápoles, contra o rei Fer¬nando (1485).

As influências ambientais ditadas por eventos sociais, econômicos, políticos, intelectuais, tem grande influência sobre a cultura e a época do Renascimento italiano foi uma dessa, ou seja, aquela que ensejaria a eclética formação cultural de Luca (absorvida de Piero, Alberti, Da Vinci e Rompiasi, especialmente).

Um fato curioso histórico, irônico mesmo, é o de que, quando nascia Paciolo, o ducado dos Sforza ia à falência, por uma “magnificência alérgica a qualquer preocupação com a Contabilidade”, como escreveu o magnífico Indro Montanelli, em co autoria com Roberto Gervaso (L’Italia dei Secoli D’oro, edição Rizzoli, Milão, 1967), sendo salvo pelos toscanos “Medici” (da região do Frei) que não só eram banqueiros, mas, que possuíam excelentes controles contábeis.

A atmosfera cultural sob a qual nasce Paciolo era a de apoio à cultura, fortemente incentivada por Cosme dos Medici (que se torna senhor de Florença em 1434 e até sua morte em 1464). A riqueza dos banqueiros florentinos alimentou Brunelleschi (que construiu a famosa cúpula da catedral de Florença, ao lado da qual existe sua estátua de bronze), Donatello (o escultor mais original do renascimento italiano), Ghiberti (que fez a porta do Paraíso do batistério de Florença), Boticelli (o exímio pintor da Primavera), Gozzoli (famoso pintor da cavalgada dos reis), Felipe Lippi (pintor de quadros notáveis nos templos religiosos), Frei Angélico (famoso pintor, com muitas produções, inclusive no Vaticano), Pico della Mirandola (erudito dialético), Marsílio Ficino (grande filósofo), Alberti (arquiteto e humanista) etc.

Os homens de fortuna na Itália, especialmente na Toscana, fizeram fervilhar a cultura da região e criaram um ambiente favorável à produção intelectual.

Como escreveram Montanelli e Gervaso, na Obra citada, referindo-se a Cosme, o povo intitulava a este como “ídolo de toda a inteligência”, “pai da pátria”, de protetor de “toda a Itália”. A política dos Médici não se alteraria até o fim do século XV e admite se que tenha sido a principal a alimentar o milagre da Renascença.

Paciolo viveu uma Itália de lutas, invasões, mas de fortíssimo teor intelectual, com o renascer intenso da filosofia platônica. Sucedendo a Cosme, Lourenço, o Magnífico, que fora aluno de Marsílio Ficino, líder de uma escola “platônica”, utilizou seu poder na continuidade de apoio à intelectualidade e isto, obviamente, consolidou, de forma notória, a produção de matéria artística, filosófica e científica.

Sob esse clima de valor a cultura, muito cedo Paciolo foi educado em sua cidade natal por um emérito pintor e matemático, Piero della Francesca (também nascido em Borgo di San Sepolcro, onde até hoje existe sua casa, defronte ao campanário de São Francisco, local que emocionado visitei em 1984), que lhe ensinou álgebra, matemática e a divina proporção platônica.

Piero nasceu entre 1410 e 1420 (não é precisa a data de seu nascimento, como muitas não são as informações históricas sobre toda a sua vida) e dedicou se a diversos trabalhos em sua Província (em Arezzo e Sansepolcro), admite se de 1455 a 1466.

O célebre pintor e intelectual, em 1469 esteve na cidade de Urbino, após exercer cargos públicos em Sansepolcro e aceitar empreitadas em Arezzo; depois de 147O parece ter ficado a maior parte do tempo em sua cidade (nesse período é que Piero Della Francesca teria lecionado para Paciolo).

Atividade de Paciolo em Veneza – início de sua atuação

Acredita se que a ida de Paciolo para Veneza deve se ao mercado de trabalho que ali existia e que faltava em sua vila de nascimento; aos 20 anos, empregou se na casa do próspero comerciante judeu Antonio Rompiasi, aos filhos do qual dedicaria uma obra. Entrementes, estudou na Escola de Domenico Bragantino, um “público leitor de matemática”, como na época se denominavam os especialistas da área que possuíam concessão para o magistério.

Não se sabe, ao certo, a completa função de Luca na casa comercial de Rompiasi, mas admite se que fosse a de pedagogo dos filhos dele, considerados os conhecimentos de aritmética, religião e arte que já trazia de San Sepolcro.

Admito que naquela época Paciolo já tivesse conhecimento das partidas dobradas (conseguimos, junto com o Prof. Marcelo Berti, ilustre docente de História da Contabilidade na Universidade de Pisa, encontrar no Museu Cívico de San Sepolcro, documentos escriturados em Partidas Dobradas, da época em que Paciolo estava naquela vila e possuía ampla convivência com a casa dos religiosos, esses que se empenhavam também na educação doa ainda muito jovem Luca).

Melis, entretanto, entende que a grande prática sobre comércio Paciolo a adquiriu em Veneza, junto a Rompiasi, o que também justifica, em parte, ter seu Tractatus se dedicado só ao ramo comercial. Até seu trabalho em Veneza, que culminou com um livro sobre álgebra, ultimado em 147O, Luca não era, ainda, um Frei.

A “Summa” foi o mais importante dos dez livros escritos (editada em 10 de novembro de 1494) mas, não o primeiro livro de Paciolo, pois, aos 25 anos, já com grande acervo cultural, produziu uma obra, dentro de sua grande vocação pelos números e cálculos.

De tal obra tem se referência, mas essa se perdeu, não deixando prova histórica; sabemos que existiu porque Paciolo a ela se refere em sua “Summa”.

A passagem por Roma – novos progressos culturais com Alberti

A inquietude cultural de Paciolo, naturalmente despertada em seus verdes anos, por Piero Della Francesca, em Sansepolcro, parece ter feito com que se sentisse atraído para absorver novas luzes. Tais luzes, por influência natural, deveriam provir de um grande mestre que muito se identificava com o pensamento de Piero. Como escreve Alberto Busignani, biógrafo daquele genial pintor e mestre, Leon Battista Alberti era um “espírito afim” ao de Piero (A. Busignani Piero Della Francesca, pág. oito, Ediciones Toray, Barcelona, 1968) e é muito possível que este tenha repassado a Paciolo a sua forte impressão sobre aquele.

Não é, pois, sem razão que por volta de 147O ou 1471 (é imprecisa a referência histórica) Luca desloca se para Roma e passa a residir na casa de Leon Battista Alberti, embora não por muito tempo.

É aí que lhe causam profundas influências os estudos de Teologia e de Filosofia que encontraram terreno fértil na mente lógica de Paciolo, essa treinada para a Aritmética e Álgebra. A aproximação com os textos relativos ao que Alberti lhe transfere, naturalmente, despertam a “consciência religiosa” mais aprofundada e isto iria induzir o genial discípulo a ingressar em uma Ordem que tanta influência na Itália exercia, pela pureza de seus fundamentos.

Alberti era escultor, pintor, músico, filósofo, em suma, um homem afinado com a policultura, um homem do Renascimento (1404 1472) e de sua autoria, famosíssima na história da arte, é a fachada da Igreja da Santa Maria Nova e do Palácio Ruccellai, ambos em Florença (terra de nascimento de Alberti).

Paciolo encontrou aquele gênio já no fim da vida, com grande maturidade intelectual, competente para exercer a grande influência que, de fato, teve e em plena vitalidade porque, em Roma, executava as obras do Palácio Veneza.

Outros estudiosos, todavia, atribuem a maior religiosidade de Paciolo ao fato de dois irmãos deste haverem entrado para a Ordem dos Franciscanos (em Borgo di Sansepolcro, onde o Santo toscano era devotado com grande eloqüência e ao qual uma Igreja fora no vilarejo dedicada).

O Frei Luca Pacioli da ordem dos franciscanos e o magistério

A fé por São Francisco, na cidade de Paciolo, parece ter se iniciado no fim do Século XIII, por volta de 1285, introduzida por um frei chamado Tommaso da Spello que ali aportou com o objetivo de construir a primeira igreja, em face de terreno doado pela comunidade (desse antigo templo hoje só existem restos da fachada).

Com a fé consolidada no santo de Assis, com os irmãos que haviam ingressado na ordem, com o suporte de teologia recebido de Alberti, outra não poderia ter sido a decisão de Paciolo, se não a de se tornar Frei, o que ocorreu por volta de seu retorno de Roma, em 1471 (Menores de São Francisco).

Outros autores admitem seu ingresso na ordem somente em 1494 (J. Vlaemminck). O agora Frei Luca Bartolomeo Pacioli di Borgo di San Sepolcro parece ter vestido o hábito na sua própria terra natal, segundo Melis (Federigo Melis, Storia della Ragioneria, pág. 62O, editor Zuffi, Bolonha, 195O). Poucos anos depois, foi lecionar matemática em Perugia (cidade perto Assis, onde estava o principal convento da Ordem Franciscana) provavelmente de 1475 a 148O, firmando se no magistério.

Em tal cidade escreve seu segundo livro, um pequeno volume, ainda sobre álgebra. Ao prestígio da Ordem, à respeitabilidade do hábito, Paciolo somava sua imagem de mestre e se consolidava como um escritor; a vocação para o ensino sempre em Luca foi algo manifesto e irreversível.

Sua obra manuscrita de 1478, de Perugia (Tractatus Matematicus ad discípulos perusinos) conserva se na biblioteca do Vaticano sob n.º. 3.129 e abrange Aritmética, Geometria, Álgebra, Câmbio, Moedas etc. e Lamouroux admite que possa ter sido o embrião da “Summa” (F. Martin Lamourox Contabilidade, pág. 3O2, ed. Caja de Ahorros, Salamanca, 1989). A estada de Paciolo em Perugia não é bem precisa (Melis admite de 1475 a 1478 e Lamouroux até 148O, assim como ainda outros preferem declará la incerta), mas, ali esteve lecionando e produziu o manuscrito referido e que continha matéria de álgebra e de cálculos mercantis, semelhante, em alguns pontos, aos assuntos da “Summa”.

O professor Mário Mari, todavia, em recentes pesquisas que elaborou, afirma que a atuação no magistério, em Perugia, foi de outubro de 1477 a junho de 1480. Quase mais 20 anos de andanças e a produção da “summa”

De Perugia o Frei deslocou se, para Veneza, novamente, onde ficou pouco tempo, viajando e localizando se em Zara (perto de Veneza, mas, já na Iugoslávia). Não se conhece o motivo da transferência, mas é em Zara que ele escreve o seu 3º livro de Matemática, também perdido, em 1481. De tal livro, só sabemos da existência pela referência que lhe faz Paciolo em sua SUMMA, quando afirma que nele havia passado de leve sobre o assunto e que agora (na Summa) estava a desenvolver em outro de maior profundidade.

De Zara, volta ele à Toscana, dessa vez à Florença e depois a Perugia. Depois vai à Roma, para ensinar. De 1490 a 1494, ainda no magistério, leciona em Nápoles e em Pádua. Volta a Florença mas, finalmente, desloca se para Veneza para revisar a sua obra “Summa de Aritmética, Geometria, Proporções e Proporcionalidade” (que se admite tenha concluído em Perugia, em 1487).

Parece não haver dúvida, todavia, de que a “Summa” tenha sido produzida e concluída na segunda metade da década de 😯 do século XV (portanto, 200 anos depois que o processo das partidas dobradas já estava consolidado na Itália; o mais antigo documento da partida dobrada na Itália é da última década do século XIII).

O tempo que decorreu entre a conclusão da volumosa obra e sua edição, de aproximadamente 7 anos, não é de admirar se, considerando se as condições da época e a preferência que os editores tinham por livros de melhor aceitação no mercado (Bíblia, obras do latim clássico etc.); também, o alto custo das edições (muitas perdas e pequenas tiragens) não estimulava a criar um grande fundo editorial (por questão de giro de capital).

O referido livro de Paciolo (cuja reprodução do original possuo), além de volumoso, tem muitos desenhos, fórmulas e arte gráfica (as letras iniciais de parágrafos e distinções são desenhadas artisticamente e consta que foram da lavra de Leonardo). O editor Paganino de “Paganini”, imprimiu a “Summa” em e esta veio à luz em 10 de novembro de 1494.

Paciolo e Leonardo da Vinci

Paciolo tornou se amigo de Leonardo da Vinci, um dos maiores gênios da humanidade (1452 1519), figura impar do Renascimento. Acredita-se que partiram, ambos, para Milão, em 1482, sob o custeio e proteção de Ludovico Sforza (1451-1508), poderoso Conde de uma Família de rara importância (O Castelo onde vivia, em Milão, está quase intacto até hoje e constitui motivo de atração turística). O tronco dos SFORZA se iniciou com Muzio Attendolo (1369 1424) e tinha em Ludovico, cognominado, “O Mouro”, (1452-1508), um de seus expoentes; o Duque muito valorizou as artes e as técnicas e em razão disto “investiu” nos dois sábios (Da Vinci e Paciolo) e os trouxe para Milão.

De 1496 a 1499, ambos os gênios permaneceram naquela cidade, até à época da invasão dos franceses (que obrigou a fuga do Duque). Perdido o apoio de Ludovico, pela circunstância desastrosa da guerra, Paciolo voltou a Veneza. Em Milão, durante sua permanência, o frei ensinou matemática na corte e consta que a tenha, igualmente, ensinado a Da Vinci as noções das “divinas proporções”.

Tais “proporções”, como as difunde Paciolo, são o resultado de comparações harmônicas; ou seja, admitem-se divinas quando um segmento de reta dividido em partes desiguais a parte menor está para a maior assim como a maior está para o todo. Admite se, inclusive, que a famosa “Ceia Sagrada”, iniciada em 1495 e concluída em 1497, (tão reproduzida e conhecida), de Leonardo (pintada na parede do Convento de Santa Maria delle Grazie), tenha tido como inspiração as divinas proporções que Paciolo tanto a defendia (o frei na época já tinha editada a sua famosa “Summa”).

Guido afirma ainda que Leonardo só se interessou pelos números, pela geometria superior, depois de sua convivência com Luca.

Lamouroux escreve que Paciolo só foi conhecer Da Vinci, em Milão (F. Martin Lamouroux, Contabilidad, pag. 3O2, Salamanca, 1989) e o questionamento do encontro dos dois fica, desta forma, dividindo opiniões, mas, é inequívoco que se tornaram amigos e que trabalharam juntos. Assegura Ângelo Guido em sua obra sobre o mito de Da Vinci (referida na bibliografia) que este já havia esboçado o desenho da Ceia (projetos acham se na Academia de Veneza e no Castelo de Windsor, atualmente) quando depois os modificou para adapta-lo de acordo com os ensinamentos de Paciolo.

Admite Guido que na mesma época em que Leonardo pintava a Ceia, Paciolo escrevia o seu outro livro “As Divinas Proporções”, inspirado nas idéias de Platão (na obra “O Timeu”) e de Euclides.

De fato, pelas ilustrações de tal obra (cuja reprodução integral possuo em minha biblioteca) pode-se perceber nas Figuras geométricas, quer nas Sólidas, quer nas vazadas, a fixação dos pertinentes “Pontos de equilíbrio”.

Logo no Prólogo do referido livro, Paciolo destaca o nome de Leonardo como “ilustre arquiteto e engenheiro” e acrescenta: “compatriota nosso, florentino”. O frei concluiu a obra em 1498 e a dedicou ao seu protetor Ludovíco Sforza (foi editada em Veneza pelo mesmo editor da Summa). A “Summa”, de 1494, fora dedicada a “Guido Ubaldo Duca d’Urbimo” (possuo, inclusive, um quadro pintado, copiado do original de Jacopo di Barbarí, com Paciolo ensinando ao Duque de Urbino cujo original está no Museu do Banco de Nápoles, em Capodimonti, Nápoles).

Tal a amizade que Da Vínci tinha a Paciolo que em 1499, após a fuga de Ludovico, com este se afasta de Milão, viajando juntos.Rapidamente passam por Mantua e Veneza para, depois, residirem juntos em Florença. A admiração de Paciolo era tamanha, por Leonardo, que à este faz muitas referências calorosas e elogiosas, em outra obra que começou a escrever quando estivera em Milão: “De Viribus Quantitatis” (que se acha, em seu original, na Biblioteca da Universidade de Bolonha).

O “De Viribus” foi uma livro que visou a estimular o gosto pelos números e por isto está plena de “jogos” e “curiosidades” matemáticas, sendo de cunho popular e incluindo formas de estabelecer sofismas através de cálculos, mas, não foi editado.

Tudo faz crer, todavia, que Leonardo e Paciolo separam-se e só se reencontraram em Roma, em 1514, quando Leão X convidou o frei para lecionar (e quando esse já havia passado por Veneza, Perugia, Florença e Borgo di San Sepolcro). Escreve Marinoni que o encontro deu-se em época em que “Leonardo já estava envelhecido e descrente” (Augusto Marinoni – “De Divina Proportione”, pag. 6, ed. Pizzi, Milão, 1982), ou seja, pouco antes que fosse para Amboise, no Vale do Loire, aonde veio a falecer, em 1519, em “Clos Lucée” e onde está enterrado (comoveu-me, profundamente, quando vi, pessoalmente, a singeleza do túmulo de tão grande homem, com uma lápide não menos singela, em uma modesta capelinha do Castelo de Amboise).

Paciolo, igualmente, vizinho já estava de sua morte que hoje já se admite, com margem de segurança, ocorreu em 1517 (vários autores entendiam que o falecimento do frei tivesse sucedido em 1515). A morte de Paciolo, foi, entretanto, em 1517, conforme estudos idôneos do reverendo Ivano Ricci, bibliotecário, em Sansepolcro, do Museu Cívico e o sepultamento deu-se naquele local na igreja de San Giovanni D’Afra.

O encontro dos dois expoentes, em Roma, foi, assim, uma despedida sem retorno, mas, inequívoca ficou, para a história, a identidade intelectual que estabeleceram.

Em memória de seu ilustre filho, nos fins do século passado, a comunidade ergueu uma estátua de bronze a Luca e essa hoje adorna um destacado recanto de seu vilarejo natal.

Os dois grandes amigos que o destino juntou, deveria, este mesmo, entretanto, separar geograficamente em seus leitos de morte; o túmulo de Leonardo está em Amboise, França e o de Paciolo em Sansepolcro, Itália.
Os últimos anos de Paciolo. A vocação do Frei, segundo Aloe e Valle, não parece ter sido monástica, pois, viajou freqüentemente. Após a estada em Florença, com Da Vinci, Paciolo ensinou nas Universidades de Pisa e de Bolonha (entre 15OO e 15O7). Em 15O1, em Florença, o frei contou com a proteção do prestigioso cardeal Soderini.

Existem provas documentais de tais passagens, inclusive recibos de salários de magistério assinados por Luca.

Em 1508, em Veneza, Paciolo proferiu uma aula magna em abertura de um curso da igreja de São Bartolomeu do Rialto, tratando da geometria euclidiana (livro V de Euclides) e das Proporções; na mesma época revisou, para seu editor, as “Divinas Proporções” (que sairia em 15O9) e a edição latina dos “Elementos”.

Em 1510 foi nomeado “Comissário” do Convento franciscano de Sansepolcro e ali ficou até que Leão X o chamasse a Roma (quando se reencontrou com Da Vinci), em agosto de 1514. Tudo nos prova que as atividades finais de Paciolo foram tão intensas quanto às de sua existência, esta que cumpriu dividindo-se entre as suas missões prediletas, como Professor e Escritor, ou seja, a de um gênio da difusão cultural.

A cultura que conseguiu acumular, quer pelo acesso aos livros mais preciosos que leu (como os da biblioteca do Duque de Urbino) quer pela influência de Piero, Alberti, Da Vinci, principalmente, ele procurou retratar em suas obras (10 livros) e em suas lições.

Sabendo conquistar amizades, como revela o famoso historiógrafo Prof. Esteban Hernández Esteve (em sua introdução ao livro De las cuentas y escrituras), relacionou-se com nobres e todos os papas de seu tempo, sempre no sentido de valorizar-se culturalmente e, também, de transferir cultura. No meio milênio da suma uma consagração mundial Quando ocorreu o meio milênio da edição da “Summa”, o mundo inteiro reverenciou o gênio italiano em uma Convenção Internacional.

O local do encontro foi em um palácio, o Centro Zitelle, na ilha onde viveu Antônio Rompiasi e na casa do qual Paciolo lecionou para os descendentes daquele comerciante – a ilha Judaica, em Veneza.

Várias entidades patrocinaram o monumental encontro, dentre elas: a Sociedade Italiana de História da Contabilidade (a qual tenho a honra de pertencer, como membro honorário), o Conselho Nacional dos Doutores em Comércio e o Conselho dos Contadores e Peritos Comerciais da Itália. Ocorreu dos dias 9 a 12 de abril de 1994, com uma série de palestras, festividades e comemorações.

Foram apresentados muitos trabalhos, provenientes da Alemanha, Japão, Espanha, Nova Zelândia, Austrália, Estados Unidos, Índia, Inglaterra, Bélgica e foram selecionados 44 deles para publicação. A edição se deu sob a coordenação de uma comissão científica, composta dos mais eminentes professores doutores e historiógrafos, das Universidades mais famosas da Itália, dentre os quais os eméritos intelectuais Carlo Antinori, Giuseppe Catturi, Giuseppe Bruni, Umberto Bertini, Antônio Amaduzzi, Maurizio Fanni, Rosella Ferraris, W. Santorelli e Giuseppe Bernoni.

A edição foi feita pela IPSOA, em 1995 e possui 484 páginas.

A Itália, em homenagem a seu filho ilustre, na ocasião cunhou uma moeda com a esfinge de Luca e estampou um selo postal (ambos os possuo), assim como facilitou aos participantes uma peregrinação a Sansepolcro (terra natal do frei).Tive a honra de representar o Brasil no conclave, inclusive levando trabalho de pesquisa sobre a vida do ilustre personagem homenageado.

Achavam-se, no evento, representantes do Brasil, Japão, Rússia, Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, Alemanha, Portugal, Espanha, França, Canadá, em suma de todos os continentes. Em 2003, a Universidade do Grande Rio, UNIGRANRIO, lançou a primeira edição de meu livro sobre Luca Pacioli e em 2004; a segunda edição, sob o patrocínio da Fundação Brasileira de Contabilidade, foi lançada quando do Congresso Brasileiro de Contabilidade, em Santos.

Foi a forma da classe contábil brasileira, no século XXI, voltar a comemorar o que deveras é imortal em nossa história. O frei italiano Luca Pacioli é um ícone de nossa história, não só porque teve a primeira obra impressa onde inseriu um Tratado sobre Escrituração por Partidas Duplas, mas, especialmente por ter rompido uma inércia e por fazer conhecido um dos mais importantes critérios de registro que toda a história da humanidade conheceu.

Cultuar personalidades que construíram uma cultura é uma forma de valorizar um ramo de conhecimento; desconhecer a História é enfraquecer a compreensão sobre o presente e perder a visão do futuro.

OPES DE SÁ, Antônio (In Memorian)
Disponível em:Homepage Antônio Lopes de Sá
<https://www2.masterdirect.com.br/448892/index.asp?opcao=7&amp;cliente=448892&eamp;avulsa=4975>
Acesso em: 24 de Setembro de 2011.

Conheça mais sobre o Local de Nascimento de Frei Luca Pacioli em: DOUBLE ENTRY, THE ITALIAN JOB: FREI LUCA PACILOI
Disponível em: <https://bookishgirl.com.au/2011/11/10/double-entry-the-italian-job-luca-pacioli-and-sansepolcro/>
Acesso em: 24 de Maio de 2012.

https://www.valentecontabil.com.br/portal/cultura/frei-luca-pacioli.html#ixzz4RmRCH5Vy

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