Oito pessoas foram presas e sete carros apreendidos na manhã desta segunda-feira (9) após investigações da Polícia Civil (PC), que monitorava uma organização suspeita de esquema ilegal de pirâmide financeira em Uberlândia. A operação Imhotep investiga o esquema fraudulento na área de investimentos por meio da Axetrader, empresa atuante no mercado financeiro. O chefe da organização criminosa, Ronan Cassiano da Silva, já havia sido preso pela PC na última sexta-feira (6), em uma chácara da região.

Segundo informações divulgadas pela polícia, os integrantes praticaram crimes de relações de consumo, estelionato e lavagem de dinheiro em pouco mais de um ano e oito meses de operações, entre o início de 2018 e agosto de 2019. As transações bancárias durante o período chegaram a R$ 27 milhões, incluindo recebimentos, pagamentos e aquisições de bens e valores, de acordo com o delegado da Polícia Civil, Daniel Azevedo.

O esquema consistia na oferta de cursos que ensinavam pessoas a trabalhar em operações de day-trade, uma modalidade de negociação utilizada em mercados financeiros, principalmente em bolsas de valores. O objetivo da prática era obter grandes lucros por meio da compra e venda ou venda e recompra de um mesmo ativo financeiro, incluindo ações, derivativos, commodities ou moedas em um único dia. A ação geralmente é feita por um mesmo especulador ou por meio da mesma sociedade corretora.

As pessoas interessadas no curso entravam na empresa com altos valores e até mesmo bens. Segundo Azevedo, vários indivíduos chegaram a vender casas e carros para investirem no mercado financeiro. O delegado disse ainda que o líder da organização criminosa prometia lucros de até 30% sobre o capital aplicado nas transações.

golpe Uberlandia
Delegados Daniel Azevedo e Marcos Tadeu falaram sobre a operação à imprensa na manhã da segunda-feira (9) | Foto: Igor Martins

O Diário procurou o advogado de defesa de Ronan, Rafael Rodrigues, que informou que está em diligências para ter acesso aos autos e à decisão que determinou a prisão preventiva do cliente na sexta à noite. “Ainda é muito pré-maturo porque há testemunhas para serem ouvidas e a apuração está em andamento. A acusação fala em estelionato, mas a defesa discorda e tem fundamentos para comprovar que não é isso”, comentou Rodrigues. 

Desarticulação do esquema
O delegado-chefe do 9º Departamento de Polícia Civil, Marcos Tadeu de Brito, afirmou que o esquema ruiu devido ao alto padrão de vida dos membros da empresa. Segundo ele, no momento em que os novos investidores entravam nas empresas, os estelionatários utilizavam o capital aplicado para pagar o dinheiro prometido aos antigos investidores. Assim, o crime da pirâmide não se sustentou, uma vez que o negócio se torna insustentável, onde apenas um pequeno grupo envolvido acaba de fato se enriquecendo.
 “Os investidores alugavam casas de luxo em condomínios, carros de mais de R$ 300 mil, joias, festas. Alguns deles chegaram a alugar uma chácara na Represa de Miranda em que pagavam mais de R$ 20 mil mensalmente”, afirmou o delegado.
As ações criminosas chegaram ao fim em agosto de 2018, quando o Banco Central (BC) bloqueou as transações da empresa. O líder, de acordo com os investidores, desapareceu e não respondia mensagens ou atendia ligações. Até o momento, a Polícia Civil ouviu relatos de 70 vítimas.

Por outro lado, os delegados afirmaram que as vítimas precisarão ser ouvidas para provarem as origens dos valores investidos e a licitude do dinheiro. Ainda segundo a polícia, algumas vítimas podem ser enquadradas como sujeitos passivos de crime e suas participações em atos ilícitos.

“Se um investidor tenta influenciar uma vítima a entrar para o esquema, mesmo que ela não saiba sobre a ilicitude de seus atos, ela passa a ser uma vítima provocadora, já que ela incita alguém a praticar um crime”, explicou. 

ORIENTAÇÃO
Azevedo pede atenção à população que deseja entrar no ramo de investimentos em mercados financeiros. Segundo ele, é importante fazer um levantamento sobre a empresa e se ela é autorizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CMV) e pelo Banco Central.
 “Não existe uma fórmula mágica para a obtenção de lucros. Muitas pessoas perderam casas, carros e acabaram sem nada. Ninguém promete só pagamentos, só retornos”, finalizou. 

BALANÇO
O balanço da operação policial foi divulgado em coletiva de imprensa realizado nesta manhã na 9ª Região Integrada de Segurança Pública (Risp), no bairro Jardim Patrícia. Com 45 policiais mobilizados, oito pessoas haviam sido presas temporariamente e uma preventivamente até o início desta tarde. Além disso, dos 16 carros bloqueados pela PC, sete já foram apreendidos e encaminhados ao pátio credenciado. 

A Polícia Civil ainda busca outros seis suspeitos de integrarem a organização criminosa. As investigações continuam. 

Fonte: https://diariodeuberlandia.com.br/